Eles começaram, nós terminaremos! – 18 de Maio 2019

 


“E vi outro anjo voando pelo meio do céu, e tinha um evangelho eterno para proclamar aos que habitam sobre a terra e a toda nação, e tribo, e língua, e povo, dizendo com grande voz: Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas” (Apocalipse 14:6-7).

Certamente, estas solenes e imortais palavras ecoaram no coração dos primeiros colportores missionários que no século XIX vieram proclamar o evangelho eterno aos brasileiros. Em 1888, um periódico adventista norte-americano registrou algumas palavras de Frederich Dressler solicitando literatura adventista. “Em outro dia, quando estávamos lendo o Arauto ao longo da estrada, um brasileiro queria que lesse para sua família; porque eles também acreditam que o Senhor virá em breve. Dissemos a ele que o artigo foi impresso em alemão e não na língua portuguesa. Então ele desejou um em português e nós prometemos escrever para vocês”.[1]

Paradoxalmente, Dressler era alcoólatra, e pedia literatura adventista gratuita “com a intenção de vendê-las para alimentar o vício que o destruía”.[2] Este triste fato, porém, não anula a realidade do interesse na mensagem adventista, no Brasil. Em 1891, a Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia votou uma equipe de colportores, entre eles Albert Stauffer, para vir colportar e iniciar o trabalho evangelístico na América do Sul.[3]

Dressler usava as publicações como moeda de troca para alimentar o vício (Imagem: Reprodução / Homens de Fé)

A vinda de colportores supriria especialmente a necessidade de literatura em alemão, pois já havia um clamor nesta direção. “Os irmãos do Brasil pedem jornais alemães e um ministro alemão. Há muitas pessoas interessadas ansiosas por ajuda”.[4] “Albert Stauffer foi o primeiro colportor adventista do sétimo dia a entrar no Brasil em maio de 1893, depois de haver trabalhado no Uruguai junto a colonos alemães e suíços”.[5]

A necessidade de obreiros alemães para o Brasil era assunto de oração, e a conversão do jovem marinheiro alemão Albert Bachmeyer à mensagem adventista foi uma significativa resposta àquelas súplicas: “E tendo orado por mais trabalhadores alemães para este grande campo, não perdemos tempo em colocar publicações em suas mãos e falar com ele sobre a verdade presente. Por um bom tempo, ele estava indeciso, mas há cerca de uma semana ele cedeu e declarou sua intenção de guardar o sábado, e entrou em nosso trabalho”.[6]

Uma mensagem além-mar

W. Snyder “pode ser considerado também o primeiro diretor de colportagem da América do Sul”.[7] Ele veio ao Brasil logo depois de Stauffer, fez amizade com Bachmeyer e o treinou.[8] Por sua vez, Bachmeyer empenhou-se na colportagem antes mesmo do seu batismo.[9] Segundo Borges, Bachmeyer e Stauffer venderam a literatura adventista em Indaiatuba, Rio Claro, Piracicaba e outros lugares, o que resultou nos primeiros interessados na mensagem adventista.

Entre eles estava o professor Guilherme Stein Jr., que residia em Piracicaba.[10] Na época, Nowlen descreveu os desafios para colportar no Brasil. “Aqui é um país quase tão grande quanto os Estados Unidos, o censo de 1888 mostrava apenas 14.000.000 de habitantes. Há cerca de um milhão de ex-escravos e o mesmo número de índios. Em uma estimativa baixa, oitenta por cento da população inteira não pode ler ou escrever”.[11]

A seguir, “no início de 1894, chegou ao Brasil o segundo missionário adventista, chamado W. H. Thurston, vindo dos Estados Unidos e estabelecendo no Rio de Janeiro um depósito de livros para atender as necessidades da colportagem local”.[12] Thurston também não falava português, de modo que se sustentou vendendo livros em inglês e em alemão.[13] Stauffer e Thurston trabalharam juntos na obra de publicações inicial no País.[14]

A literatura era enviada pelo país através de barcos, animais e do próprio colportor. Por sua vez, “em 1895, dois colportores irmãos, Alberto e Frederico Berger, chegaram ao Brasil, vindos dos Estados Unidos, iniciando no Rio Grande do Sul um trabalho sistemático de vendas de publicações adventistas nas colônias alemãs; posteriormente, colportaram entre as comunidades alemãs de Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo”.[15]

Já em 1896, Lionel Brooking, um inglês convertido, colportava entre os alemães do sul do Brasil.[16] E, pouco mais tarde, em 1898, Augusto Black veio da Alemanha e trabalhou na região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina.[17] Na década de 1890, em grande parte devido ao trabalho dos colportores pioneiros, surgiram grupos de adventistas do sétimo dia em vários lugares, como Indaiatuba, Piracicaba e Rio Claro, no Estado de São Paulo; em Curitiba, no Paraná; em Santa Maria, no Espírito Santo; em Teófilo Otoni, Minas Gerais; em Gaspar Alto e Joinville, Santa Catarina; e nas cidades de Não Me Toque, Taquari, Ijuí, Santa Maria, Campo dos Quevedos, Rolante e Fazenda Passos, no Rio Grande do Sul.[18]

Esses missionários mencionados foram os primeiros, e “nas pegadas desses pioneiros seguiram Henrique Tonges, Germano Conrado, Emílio Froeming, Hans Mayr[19], Saturnino Mendes de Oliveira, Antonio L. Penha, José Negrão, André Gedrath e muitos outros que propagaram a nossa literatura de norte a sul e de leste a oeste no vasto Brasil”.[20]

Expansão em solo brasileiro                                                                                     

Devido à limitação de espaço, não é possível contar a história e realizações de cada um desses heróis que trabalharam em nossa pátria. Entretanto, a seguir entenda como a mensagem adventista entrou em Curitiba, no Paraná. Segundo Gross, a cidade tinha apenas 45 mil habitantes, e em 12 de janeiro de 1896, às 11h30 da manhã, inaugurava-se um templo evangélico na rua Comendador Araújo.

Dois visitantes desconhecidos entraram no edifício e assentaram-se. Estava na congregação a senhora Ana Dietrich Otto, parteira de famílias ricas da cidade. Ela sentiu que devia olhar para trás e viu os dois visitantes.[21] “Na segunda-feira pela manhã, estava a senhora Otto à janela de sua residência à rua Barão de Antonina, próximo ao passeio público, quando observou, subindo a rua e batendo em todas as casas, os mesmos dois senhores. Quem eram eles? Sim! Colportores, os primeiros a trabalhar em Curitiba. – Alberto B. Stauffer e um companheiro cujo nome não foi possível precisar. E naquela manhã, Ana Otto comprou o livro ‘Vida de Jesus’ (edição em alemão), de autoria de Ellen G. White”.[22] A senhora Ana e seu esposo, Oscar Emílio Otto, aceitaram a fé adventista, tornando-se os primeiros adventistas conversos no Paraná.

Afinal, o que levou aqueles fieis e intrépidos missionários estrangeiros a deixar seu país de origem para trabalhar nesta terra distante, enfrentando limitações de idioma, transportes e recursos financeiros para compartilhar o evangelho eterno e a tríplice mensagem angélica através da literatura?

Um estudo mais detido revelará que aqueles pioneiros eram verdadeiros discípulos de Jesus, pois, além de manter um compromisso com Cristo, revelaram seu comprometimento com a mensagem e a missão dada pelo Senhor à Sua Igreja. Neles se cumpriram as palavras: “Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como missionário”.[23]

A história dos pioneiros da obra adventista no Brasil é realmente inspiradora. Pesa sobre nós, adventistas do sétimo dia brasileiros, a responsabilidade de continuar o trabalho dos pioneiros em nossa pátria, e de também enviar consagrados missionários ao estrangeiro.

Considerando que o desafio da grande comissão dada por Cristo ainda é a nossa tarefa, a única resposta aceitável que podemos dar é: “Pela graça de Cristo, eles começaram e nós terminaremos! Até que Ele venha, nós também testemunharemos, e espalharemos às mãos cheias a sagrada literatura da verdade presente em nossa pátria e nos campos missionários estrangeiros”.


Referências:

[1]Friedrich Dressell (Frederich Dressler), Advent Review and Sabbath Herald, 6 de março de 1888, 157.

[2]Michelson Borges, A chegada do adventismo ao Brasil, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), 57.

[3]Nicolás Chaij. O colportor do êxito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1992), 43.

[4]“The German Work in South America”, Advent Review and Sabbath Herald, 5 de janeiro de 1892, 6.

[5]Ruy Carlos de Camargo Vieira, Vida e Obra de Guilherme Stein Jr., (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1995), 132; Ver também: Gideón de Oliveira, História de nossa igreja (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1965), 308.

[6]E. W. Snyder, “Experiences and Progress in Brazil”, Advent Review and Sabbath Herald, Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1893, 5.

[7]E. H. Meyers, Revista Mensal, janeiro de 1929, 4.

[8]Borges, 74-75. Rute Vieira Streithorst. Pelos caminhos e valados (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), 49.

[9]O batismo de Albert Bachmeyer ocorreu em junho de 1895 em Gaspar Alto, Santa Catarina. Borges, 89; Streithorst, 49.

[10]Borges, 75.

[11]C. A. Nowlen, “Brazil: Who Will Go?”, Advent Review and Sabbath Herald, 14 de novembro de 1893, 5.

[12]Wilson Sarli. Colportagem: o que é? Objetivos e algumas dicas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, l993), 18.

[13]Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de luz (Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 2002), 222.

[14]Floyd Greenleaf, Tierra de esperanza, 1ª ed. (Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 2011), 33.

[15]Sarli, 18. Ver também: David Moróz, Revista Adventista, “Origem e História dos adventistas no Rio Grande do Sul”, Casa Publicadora Brasileira, Tatuí, São Paulo. dezembro de l993, 7.

[16]Heriberto Peter, “Desarrollo histórico de la Iglesia Adventista en la Argentina hasta 1908” (Tesis de Maestría em Teología, Colégio Adventista del Plata, Villa Libertador San Martin, Entre Ríos, 1984), 50.

[17]Vieira,151.

[18]Moróz, 7.

[19]Hans Mayr, El abuelito Hans, 1ª ed. (Buenos Aires: Asociación Casa Editora, 2004).

[20]Streithorst, 50-51.

[21]Renato Gross, Colégio Internacional de Curitiba (Curitiba: Collins Editora, l996), 21-22.

[22]Ibídem.

[23]Ellen G. White. Serviço cristão, 9ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012),  9.


Para compreender mais sobre a chegada da mensagem adventista ao Brasil, assista ao documentário abaixo:




Artigos Adventistas: Daniel 2 e a Missão de Deus na História – 03/05/2019

 


“Este é o sonho; também a sua interpretação diremos na presença do rei. Daniel 2:36”

Estátua do sonho do rei retratada no segundo capítulo de Daniel é discutida há muito tempo, inclusive por Isaac Newton.

Como aponta Collins, poucos livros têm influenciado tanto a história do Ocidente como o livro de Daniel o faz.[1] Evidentemente isso deve tanto à sua beleza quanto à riqueza e desafios literários, mas, também, a sua abrangência profética. O conteúdo do livro é de todo cativante e envolvente, marcado por narrativas e profecias e, em alguns momentos mesmo, a combinação desses gêneros em episódios específicos como é o caso do capítulo 2. Mesmo em um primeiro contato, é comum ao leitor da Bíblia ser atraído pela habilidosa combinação existente entre o drama narrativo e sonho apocalíptico no referido texto.

Leia também:

Este artigo pretende salientar os meios da revelação de Deus à Nabucodonosor, o monarca pagão. Ou seja, pretende analisar o fenômeno do sonho profético e a forma de sua linguagem a fim de destacar a intenção de salvação divina em relação ao referido rei. Serão levantadas informações que demonstrarão o ambiente da revelação familiares ao monarca e que apontam, assim, o objetivo essencial de Deus para com Nabucodonosor, seu público alvo em primeira instância, e semelhantemente à humanidade posterior a ele.

Contexto do sonho

O conteúdo do capítulo como um todo foi provocado por causa de um sonho comunicado a Nabucodonosor. A agitação inicial já evidencia o caráter de como os sonhos eram considerados quanto a comunicações dos deuses na cultura antiga. É sabido que babilônios e egípcios habitualmente os registravam nos chamados livros dos sonhos,[2] estes já agregados com algumas diretrizes interpretativas. Combinadas as informações referentes ao sonho em Daniel 2 nota-se que este se tratou de um sonho acorrido pelo menos duas vezes na mesma noite.[3] Os versículos 1 e 2 informam o sonho nas formas singular e plural, enquanto o versículo 29 sugere o sonho como algo de uma ocasião, isto é, enquanto o rei estava no seu leito. O fato da exigência de Nabucodonosor quanto à revelação e significado do sonho testifica da impressão de mal presságio que ele provocou em sua mente. Portanto, o quadro como um todo pressupunha tanto o envolvimento quanto a inescapável necessidade de divindades para a resolução do fato ocorrido.

Daniel é introduzido a Nabucodonosor e passa a fazer a exposição do sonho enigmático de uma estátua constituída de múltiplos metais. A imagem é atingida em seus pés de modo fulminante por uma rocha, a qual, por sua vez, torna-se uma montanha ocupando toda a terra. Segundo Festugière, o uso de uma estátua para designar o destino de uma nação era algo natural principalmente no Egito[4], o que implica Nabucodonosor já estava familiarizado com o tipo de informação. Isso torna mais significante a observação “dizei-me o sonho e saberei que me podeis da a interpretação”. Tal exigência sugere ele lembrava parte do sonho, mas não o suficiente para uma clara compreensão do sentido e, também, o seu receio de ao mencionar suas parcas recordações receber uma interpretação enganosa e mesmo conspiradora por parte dos seus interpretes, conforme o versículo 9.

Veja estudo completo em vídeo sobre Daniel 2:

Interpretação do sonho e suas implicações hoje

A exposição do sonho por Daniel é imediatamente seguida pela interpretação. O conteúdo, portanto, é explicado para descrever a história do mundo em uma sucessão de reinos. Estes reinos que, ao seu fim, serão totalmente destruídos e substituídos por um reino de origem celeste que jamais passará. O conteúdo elabora uma exposição e interpretação profética da história desde os dias de Daniel até o estabelecimento do reino de Deus na segunda vinda de Jesus. Tendo, deste modo, a sucessão de metais cumprimento histórico na sequência imperial: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Esta é uma proposta tradicionalmente percebida por intérpretes judaicos[5], rabinos e pais apostólicos[6]. E da mesma forma, a interpretação o foi na reforma protestante[7] como, também, o tem sido por teólogos adventistas e outros conservadores[8].

Algo também digno de nota é o conceito de apresentar a história em termos de quatro impérios ou eras. Isto constituía prática familiar nas literaturas clássicas e antigas. Neste segmento, é interessante perceber a similaridade da distribuição metálica que se acha em Daniel 2 e a que se nota em Erga kaí Hemérai (“Trabalhos e os Dias”), um poema épico de Hesíodo, escritor grego, datado do oitavo século a. C. Nele, são apontadas cinco eras, sendo que quatro são representadas por ouro, prata, bronze e ferro[9]. Desde o acadiano podemos encontrar a chamada Profecia Dinástica[10] material, que permeia do segundo ao terceiro século a. C. Nela, tem-se a disposição da história como sendo regida por quatro reinos sucessivos: a Assíria, Babilônia, Pérsia e Grécia.

Dentre outros exemplos é ainda válido mencionar os Oráculos Sibilinos (4:49-104), os quais remontam provavelmente ao segundo século a.C. em que se encontra proposta semelhante de quatro impérios, os assírios, medos, persas e macedônios. Referindo-se ao ambiente cultural que girava em torno de Nabucodonosor, ainda se pode refletir o elemento a grande pedra que atinge os pés da estátua destruindo-a de todo. É possível que o rei tenha entendido isto como uma realidade semelhante ao que se acha no épico de Gilgamés. Em tal épico, num dado momento, é informada a vinda de Enkidu representado como um meteoro. No entanto, ele aterrissa aos pés de Gilgamés e se torna como que um companheiro de regência. Só que a manifestação da rocha no sonho de Nabucodonosor não viria para sugerir regência conjunta, mas o estabelecimento de um reinado independente e eterno.

Embora Nabucodonosor tenha reagido de modo imediatamente favorável à Daniel no final do capítulo 2, o desafio ao reino de Babilônia fora estabelecido e este reino passaria conforme propôs o profeta de Deus. Como tem sido apontado por alguns, o monarca babilônico pode ter alimentado seu ego e expectativas e reagido contrário à esta revelação, mesmo baseado na Profecia de Uruk. A profecia fala de um rei sábio e justo que sucederia a quatro com lamentáveis administrações e seria um rei favorável à Uruk levando de volta para ela a estátua de Istar que se encontrava em Babilônia. Este rei teria um filho cujo reinado se estabeleceria para sempre e este filho tem sido visto como Nabucodonosor.[11] Que o conhecimento disso pode ter motivado a Nabucodonosor a reagir em oposição ao revelado por Deus é uma considerável possibilidade. De qualquer modo, sua reação contrária ao revelado no sonho é notória no capítulo 3, no erguer de uma estátua toda de ouro, visto ser esse o metal referido ao seu reino no sonho. A reação fica de todo óbvia, Babilônia não seria só a cabeça, mas todo o corpo também.

Reconhecer soberania de Deus ou não

Estes dados de modo claro revelam versões paralelas àquela disposta pelo profeta Daniel em seu livro, versões que o povo pagão ser apegava como sendo verdades. Restava, portanto, a Nabucodonosor fazer uma escolha entre o caldeirão de crenças e culturas pagãs comuns de seus dias ou reconhecer a soberania do Deus de Daniel. O modo como a revelação chega a Nabucodonosor demonstra um Deus que vai ao humano em seu próprio ambiente, e o faz avidamente intentando alcançá-lo.

O sonho de Daniel 2 não apela apenas a Nabucodonosor por um decisivo posicionamento de fé à revelação do Deus bíblico, mas a todo aquele que independente de sua época se defronte com esta revelação. Deste modo, o conteúdo bíblico, mesmo o de caráter apocalíptico, como é o caso de Daniel 2, revela a natureza salvífica e de defesa de sua mensagem, seu conteúdo constitui a apresentação não de uma opção da verdade ao lado de tantas outras, mas a manifestação absoluta da verdade em sua essência, realidade que se revela infalível ao longo da história.

 

Referências:

[1] Collins, John Joseph, Peter W. Flint, and Cameron VanEpps. The Book of Daniel: Composition and Reception. Vol. 1 Vol. 1. Leiden: Brill, 2002.

[2] Walton, John, Mark W. Chavalas, and Victor Harold Matthews. Old Testament. Leicester: Inter-Varsity, 2000.

[3] Doukhan, Jacques. Secrets of Daniel: Wisdom and Dreams of a Jewish Prince in Exile. Hagerstown, MD: Review and Herald Pub. Association, 2000.

[4] André J. Festugière, La révélation d’Hermès Trismégiste (Paris, 11950), t. 1. pág. 92-93.

[5] Josefo (Antiquites X. 208-10 ); 4 Esdras 11:1-35; 12:1-30; 2 Baruque 39:3-7.

[6] Irineu, Against Heresies, livro 5, cap. 26, em ANF, 1:553-55; Holbrook, Frank B. Symposium on Daniel: Introductory and Exegetical Studies. Washington, D.C: Biblical Research Institute, 1986.

[7] LeRoy Edwin Froom, The Prophetic Ftíith of Our Fathers vol. 2, (Washington, DC, 1940): p.267-68

[8] Joyce Balwin, Daniel (Downer’s Grove, IL, 1978), p. 93; John Walvoord, Daniel (Chicago, 1971), p. 76; e Leon Wood, Daniel (Grand Rapids, 1973), p. 74.

[9] Hesíodo (os trabalhos e os Dias pág. 109-180)

[10] Edição com comentários por A. K. Grayson, Babylonian Historical-Literary Texts, Toronto Semitical Texts and Studies 3, Toronto 1975.

[11] Walton, John, Mark W. Chavalas, and Victor Harold Matthews. Old Testament. Leicester: Inter-Varsity, 2000.




Morte, ressurreição de Cristo e fake news – 19/04/2019

 



A tradicional “Semana Santa” cristã é uma oportunidade para meditarmos nos acontecimentos de quase dois mil anos atrás, principalmente da sexta-feira, do sábado e do domingo. Porém, nesta época de fake news,[1] é necessário perguntar-se: “o que é e o que não é verdade em relação à natureza teológica do que ocorrera naqueles dias?”

Segundo Gibbon, o historiador tem uma tarefa melancólica em relação à religião: “A ele cumpre descobrir a inevitável mistura de erro e corrupção por ela contraída em uma larga residência sobre a terra, em meio a uma raça de seres decaídos e degenerados”.[2]

O apóstolo Pedro já advertira: “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até o ponto de renegarem o soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si repentina destruição” (2Pedro 2:1).

Para discernir entre a verdade e o erro religioso, nossa única segurança é examinar a Bíblia, pois, “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para repreensão, para a correção, para educação na justiça” (2Timóteo 3:16). Se pedirmos a Deus, podemos contar com o prometido “Espírito da verdade” para nos guiar “a toda a verdade” (João 16:13).

A seguir, vejamos alguns pontos cruciais sobre os acontecimentos daqueles dias.

Sexta-feira

(1) Cristo morreu para salvar os pecadores. “Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda” (Lucas 23:33). Era o “dia da preparação, isto é, a véspera do sábado” (Marcos 15:42). O testemunho da historicidade de Cristo e de sua morte na cruz dados pelo judeu Josefo (c.37-c.100), os romanos Tácito (55-117), Plínio (c. 112) e Luciano (c.125-c.190) são de grande valor, pois eles não eram cristãos.[3] A morte de Cristo foi muito mais do que algo comovente. Ele “morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Coríntios 15:3). Sua missão de “buscar e salvar o que estava perdido” e “nos reconciliar com Deus” também incluía derramar Seu sangue para “remissão de nossos pecados” (Lucas 19:10; 1 Timóteo 1:15; Atos 4:12; 1 Coríntios 5:21; Mateus 26:28).

(2) Cristo contrariou apenas as errôneas expectativas judaicas. Equivocadamente, os judeus esperavam um poderoso Messias conquistador (Lucas 24:21; Atos 1:6). Mas, conforme as Escrituras, Jesus veio como messias sofredor e salvador (Salmos 22:7-8, 14-18, 20; 34:20; 35:11; 38:11; 41:9; 55:12-14; 69:21; 109:25; Isaías 52:13-53-12; Daniel 9:25-26; Zc 11:9, 12; 12:10; 13:6-7). Quando no Getsêmani, Pedro procurava livrar a Jesus com uma espada. O Senhor, então, lhe disse: “Como, pois se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?” (Mateus 26:54). De fato, o Messias devia “primeiro padecer, para depois entrar em Sua glória” (Lucas 24:26). O Filho de Deus encarnou-se, despojado de Seu esplendor, mas em Sua segunda vinda virá como Rei dos reis e Senhor dos senhores (Apocalipse 19:11-16). 

(3) Cristo morreu para ser nosso único sacerdote. Em Sua morte, sem qualquer auxílio humano, “o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo” (Mateus 27:51). Esse evento eloquentemente indicou que para sempre caducara o sacerdócio levítico, e aqueles sacrifícios prefigurativos da morte do messias. Após Sua ressurreição, Cristo inaugurou Seu ministério sacerdotal no santuário celestial em favor dos remidos pelo Seu sangue (Hebreus 8:1-7;10:3-14). Evidentemente que após a morte de Cristo, um sacerdócio organizado e hierárquico na Igreja cristã constitui-se grave distorção e manipulação da linha histórica do plano bíblico da redenção. Como anomalia teológica rival, desvia os adoradores da suficiência e validade contínua do sacrifício único de Cristo realizado na cruz, e de Seu ministério sumo sacerdotal celestial (Daniel 8:9-12).

Sábado

(4) Cristo descansou no sábado, confirmando-o como único dia santo.  Considerando que Cristo é o divino verbo criador (João 1:1-3), foi Ele mesmo quem instituiu o sábado como memorial da criação e da redenção (Gênesis 2:1-3; Êxodo 20:8-11; Deuteronômio 5:12-15). Coerentemente, após Sua encarnação, o filho de Deus honrou o dia sagrado que instituíra. “Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler” (Lucas 4:16). O verbo grego εἴωθα, que significa “estar acostumado”, está no tempo perfeito indicando “uma ação já completada no passado, cuja ação tem produzido um estado ou resultado que continua no presente do autor”.[4] O verbo está na voz ativa, sinalizando que Cristo estava executando a ação.[5] Portanto, seu costume era algo religiosamente repetido.

Não foi por acaso que Ele orientou seus seguidores a orar, (por quase 40 anos) após Sua ressurreição, para que a fuga de Jerusalém não ocorresse no Seu santo dia (Mateus 24:20). Não foi sem motivo que o divino verbo criador também descansou em um sábado, na sepultura, após realizar Sua perfeita obra de redenção na cruz do calvário. E não foi por distração que “as mulheres que tinham vindo da Galileia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E no sábado, descansaram, segundo o mandamento” (Lucas 23:54-56).

Entre aquelas mulheres estava Maria (João 19:25). Ora, se o Senhor do sábado (João 1:1-3; Gênesis 2:1-3; Êxodo 16:23; Marcos 2:28) tivesse o propósito de mudar Seu dia de guarda (Isaías 58:13; Lucas 4:16; Apocalipse 1:10) para outro dia, não deveria, pelo menos, ter avisado sua própria mãe? Portanto, não é a “semana” ou outro dia que é santo, mas somente o sábado do sétimo dia (Gênesis 2:1-3; Êxodo 20:8-11; Apocalipse 14:6).

Domingo

(5) A observância do domingo não começou com a Igreja em Jerusalém. Jesus Cristo ressuscitou no primeiro dia da semana (Mateus 28:1-10; Marcos 16:9). Entretanto, o silêncio eloquente das Escrituras quanto a uma pretendida mudança do dia bíblico de adoração para o domingo deveria ser suficiente para exigirmos um claro “assim diz o Senhor” para tal pretensão. Conforme Strand, “o Novo Testamento não dá nenhum indício de que os apóstolos instituíram uma comemoração semanal nem anual da ressurreição no domingo”.[6] O apóstolo Paulo apenas nos informa que Cristo “ressuscitou para nossa justificação” (Romanos 4:25). As causas da adoção do domingo como dia de repouso foram “em grande escala de natureza social e política”.[7] A propósito, “é encontrada evidência precisamente na Igreja de Roma das primeiras medidas concretas para afastar os cristãos da veneração do sábado e de instar a observância do domingo exclusivamente”.[8] 

(6) A “Semana Santa” é uma oportunidade evangelística. Segundo Paulo, “a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós que somos salvos, poder de Deus” (1Coríntios 1:18). Cristo e Seu sacrifício é o âmago do evangelho e o centro da nossa esperança. Quando experimentamos Sua salvação, podemos afirmar que o evangelho é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). E ao ousarmos proclamar a “Cristo e Este crucificado” (1Coríntios 2:2), temos oportunidade de sermos usados como seus instrumentos na salvação de pessoas e de apressar a segunda vinda do Senhor (2Pedro 3:12).

Você já aceitou a Cristo como Senhor e Salvador? O que fará agora para apressar Seu retorno?


Referências:

[1]Fake news é aquele “tipo de notícia, encontrada em meios tradicionais, mídias sociais ou sites de notícias falsas”, que “não tem nenhuma base na realidade, mas é apresentado como sendo factualmente corretas”. Hunt Allcott, Matthew Gentz. «Social Media and Fake News in the 2016 Election» (PDF). Journal of Economic Perspectives (Consultado em 06.04.2019).

[2]Edward Gibbon, Declínio e queda do império romano (São Paulo: Companhia de Letras Círculo do Livro, 1989), 195.

[3]Earle E. Cairns, O cristianismo através dos séculos, 2ª ed. (São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2007), 39-40.

[4]Michael S. Heiser. Glosario de la base de datos de terminología morfológica-sintáctica. Logos Bible Software, 2005, perfect.

[5]Ibidem. Active.

[6]Kenneth A. Strand, ed. El sábado en las Escrituras y en la historia (FL: Inter-American División Publishing Association, 2014), 186.

[7]Samuele Bacchiocchi, Do sábado para o domingo, v. 4 (Roma: Pontifícia Universidade Gregoriana, 1977), 21.

[8]Strand, ed., 175.




Artigos Adventistas: Quando Deus não Responde a Oração – 02 de Abril 2019

 



“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” Hebreus 11:6

Por que Deus não responde à oração é uma questão tão antiga quanto o princípio do mal. Quando o pecado surgiu, ele nos separou da presença de Deus e consequentemente das respostas diretas de Deus. Desde Abel que morreu provavelmente perguntando “Por quê Senhor”? ou mesmo Moisés que pediu para entrar na terra prometida e o pedido lhe foi negado. Davi passou uma semana orando por seu filho recém-nascido que veio a morrer. Santo Agostinho pedia em oração, quando criança, que os professores não lhe batessem, mas continuava apanhando na escola.

Pessoas que sofreram porque nem respostas receberam. Fatos como esses alimentam o ceticismo ao longo dos anos. Francis Galton foi um cético inglês, primo de Charles Darwin, que escreveu uma obra e analisou cientificamente a oração. Ele propôs que a oração, em diversos aspectos, não surte nenhum efeito e que orar e não orar é a mesma coisa. Pois Deus, se existe, não se preocupa em responder. Eu creio na oração, mas tenho de reconhecer o desafio de lidar com situações como as descritas acima.

Motivos para crença na oração

Se Deus dissesse que a oração seria como uma caixa de sugestões, em que apresentaríamos nossas petições, e Ele as iria analisar com cuidado, seria mais lógico. Muitas circunstâncias da vida, no entanto, parecem reforçar mais as frustrações das vezes que você orou e não obteve respostas. Temos de admitir, também, que Deus muitas vezes realmente não responde, mas que temos a opção de escolher algo melhor que o ceticismo.

Esse artigo não é uma resposta ao tema “Por que Deus não responde?”. É a apresentação dos motivos que me levaram a escolher o caminho da crença e não do ceticismo.

Gostaria de apresentar cinco argumentos que sustentam minha crença:

1.Apesar de a ausência de respostas me trazer dúvidas, as respostas que recebo me fazem crer em um Deus que age a meu favor.

Se não ter respostas traz dúvidas, as respostas devem me levar até a certeza de que Ele me ouve. O mundo age assim: quando tudo dá errado é porque Deus não ouve, não existe ou não se preocupa, mas quando coisas boas acontecem foi o acaso que me protegeu ou simplesmente as circunstâncias da vida.

Jorge Muller, um cristão do século 17, tinha como principio de vida ver a providência e ação de Deus em cada aspecto da vida e o costume de escrever as respostas que recebia de Deus. Ao final da vida, ele reuniu em um livro 50 mil respostas de Deus as suas orações ao longo da vida. A pergunta a ser feita é: por que as evidências não nos aproximam de Deus na mesma proporção em que as dúvidas nos afastam dEle?

O inimigo coloca a dúvida e assegura que Deus não nos ouve e não se preocupa com conosco. E, assim, nos leva a ficar com essa dúvida. Deus, por outro lado, afirma que não precisamos temer, pois Ele está conosco todos os dias. Decidi crer nas evidências e questionar as dúvidas.

2.Decidi crer que Deus tem propósitos muitas vezes desconhecidos por trás do silêncio ou da resposta negativa.

Sabemos por que Deus não respondeu a oração de Jesus no Getsêmani. Ele tinha o propósito maior de nos salvar. Sabemos responder por que Deus não atendeu ao pedido de Marta e Maria para curar Lázaro. Deus tinha o propósito maior de dar uma ressurreição.

Por que não usar esse mesmo argumento quando Deus não me responde?

Não entendemos todos os propósitos por trás das respostas de Deus, mas biblicamente um dos propósitos é me levar a uma confiança mais madura.

Você pode perguntar: como me dar uma resposta negativa ou mesmo não me dar resposta alguma me leva a ter mais confiança?

Permita-me contar uma ilustração. Imagine que você tenha um comércio e precise pagar uma dívida de 10 mil Reais. Você não tem um centavo e, de repente, um cliente que você nunca viu na vida entra em sua loja e compra exatamente o equivalente a 10 mil Reais. Ao final da compra, ele diz: vou levar a mercadoria, mas só posso pagar em cheque. Você sente medo e desconfia do cheque, mas entrega a mercadoria. Recebe o cheque e corre ao banco a fim de trocar o cheque e descobre que o cheque tem fundo. Quinze dias depois, o mesmo cliente volta, compra mais 10 mil Reais e novamente passa um cheque. Você sente medo novamente, mas não é o mesmo medo da primeira vez. Vai ao banco e novamente o cheque tem fundo.

A cada quinze dias, ele volta e sempre paga em cheque e sempre o cheque tem fundo. Depois de um bom tempo e muitas compras sempre corretas, ele se torna seu amigo e um dia ele compra mais 10 mil Reais. Então ele percebe que não trouxe o cheque e diz: hoje não posso levar a mercadoria, esqueci o cheque. Provavelmente você dirá: pode levar, daqui a quinze dias você traz o cheque.

O que aconteceu? As respostas de fidelidade do cliente lhe levaram a confiar nele mesmo sem a garantia do cheque.

Na vida espiritual, acontece a mesma coisa. As respostas de Deus ao longo da vida são como cheques da fidelidade e cuidado dEle. Mas Ele quer nos levar a um tipo de relacionamento e confiança que faça dizer: O Senhor já mostrou que é fiel para comigo e mesmo sem respostas (mesmo sem passar um cheque) eu continuo confiando no Senhor.

A ideia é que não duvidemos na escuridão do que Deus mostrou a você na luz. Biblicamente as pessoas que mais confiaram não foram os que viram o mar sendo aberto, uma nuvem de fogo a noite e uma chuva de alimento. Os que mais confiaram foram aqueles direcionados para a fornalha, os que levaram seu filho ao altar do sacrifício ou perderam tudo o que tinham em um conflito entre o bem e o mal.

3.Se eu soubesse que Deus responderia minhas orações sempre como e quando eu quero, eu iria parar de orar.

Não teria confiança em saber que minha frágil sabedoria humana seria o critério para as respostas de Deus.

Quando a Bíblia afirma que tudo o que pedimos será realizado devemos ter em vista que é tudo o que estiver em conformidade com os propósitos e promessas de Deus.

No livro Caminho a Cristo, a Escritora Ellen White afirma que “somos tão falíveis e curtos de vistas que às vezes pedimos coisas que não nos seriam uma benção, e nosso Pai Celestial amorosamente nos atende às orações dando-nos aquilo que é para o nosso maior bem – aquilo que nós mesmos desejaríamos se com vistas divinamente iluminada, pudéssemos ver todas as coisas tais como elas são na realidade.”

Devemos confiar que Deus sendo completamente bom, sabe dar boas dádivas e sendo completamente sábio sabe quais dádivas são boas e quais não são.

4.Decidi que minha ênfase na vida cristã não seria esperar respostas mas desfrutar da companhia de Deus.

Respostas não são a única evidência da presença de Deus comigo. Meu relacionamento com Deus se baseia não nas respostas, mas na companhia. Quando Abrão saiu da Terra de Ur, dos caldeus, ele perguntou para onde ia e Deus não respondeu, mesmo assim Abrão saiu de sua terra e da casa de seu pai (Gênesis 12). Ele não sabia para onde iria, mas sabia com quem iria e isso lhe foi suficiente. Deus havia dado uma promessa de que iria abençoá-lo na jornada e ele se apegou não a uma resposta, mas à promessa. Quando oro, eu vou a presença de um amigo e não de um político ou um Papai Noel cósmico.

5.Creio que, apesar de algumas vezes Deus não me responder, Ele me ama.

A fé não é um jargão cristão, uma doutrina ou uma afirmação. Fé é um relacionamento com alguém digno de confiança. Fé é confiança, e você só é capaz de confiar em alguém que você conhece. Se você conhece você confia e se você confia você é capaz de amar. Conhecer, confiar e amar esse é o caminho.

Não sei lhe dizer por que Deus não responde, mas sei, por experiência própria, que quando isso acontece Ele continua me amando. Quais são suas dúvidas e lágrimas, perguntas e questionamentos? Ouça Deus lhe dizendo hoje: Vinde e arrazoemos, vamos conversar, questione, duvide, mas não se afaste de mim. As dúvidas sinceras de Jó foram melhores que as certezas fingidas dos seus amigos. Não desista e permaneça firme até o dia em que Ele responderá todas as dúvidas e enxugará todas as lágrimas.




Artigos Adventista: O que a Bíblia ensina sobre o milênio? – 27/03/2019

 



Este breve artigo focaliza o período dos mil anos, também conhecido por milênio, apresentado no capítulo 20 do livro bíblico do Apocalipse, e três principais posicionamentos históricos dentro do cristianismo relacionados àquele período: o Amilenismo, o Pós-Milenismo e o Pré-Milenismo.

O Amilenismo nega a existência de um milênio literal.[1] Tal conceito foi popularizado por Agostinho (354-430) sem razões exegéticas.[2] A primeira ressurreição é vista como o novo nascimento da fé ou o batismo.[3] A ideia de um milênio é ensinada simplesmente como o período que agora vivemos na Terra. É interpretado como um símbolo do triunfo do cristianismo[4] entre o primeiro e o segundo advento de Cristo, e do gozo de supostas almas de defuntos salvos que agora reinariam com Cristo no céu.[5] Este método de interpretar, conhecido como alegoria, consiste em “especulações que o próprio autor nunca teria reconhecido”.[6]

Para os amilenistas, Cristo retornará de forma direta e cataclísmica, iniciando não um reino de mil anos, mas uma nova era na Terra seguida do “juízo final e a eternidade”.[7] Para o evangélico George Ladd, “os primeiros antimilenistas desprezavam a interpretação natural do Apocalipse não por razões exegéticas porque cressem que o livro não ensinava um milênio”, mas “porque não gostavam da doutrina milenista”.[8]

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Por sua vez, o grupo pós-milenista coloca erroneamente a segunda vinda de Cristo após o milênio. Seu conceito é semelhante ao amilenismo, mas há uma diferença básica entre os dois: para o pós-milenista, haverá um reino terrestre em um período denominado milênio, que não será necessariamente de mil anos literais.[9]

“Desde o século XVII pós-milenistas vinham crendo que a pregação do evangelho e reformas sociais estenderá o reino de Deus, e o mundo inteiro se cristianizará, gradualmente se converterá, haverá um grande período de justiça e paz”, e “Cristo regressará ao final deste período”.[10] O otimismo pós-milenista comprovou-se exagerado, pois “as duas guerras mundiais e a chegada da era nuclear convenceu a muitos deles de que a sociedade não melhorará”.[11] Desapontados, muitos pós-milenistas voltaram-se para a opção do amilenismo.[12]

Vozes contrárias

Algumas profecias do apóstolo Paulo claramente contrariam ideias pós-milenistas. “Sabe, porém, isto, nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes” (2 Timóteo 3:1-5). “Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (3:13).

Estas profecias estão em acordo com a profecia de Cristo referente à situação moral nos últimos dias da história. “Pois assim como foi nos dias de Noé também será a vinda do Filho do homem” (Mateus 24:37). Finalmente, a terceira posição referente ao milênio é chamada pré-milenismo, posicionando corretamente a segunda vinda de Cristo no início dos mil anos. A propósito, “os primeiros cristãos, e os Pais da igreja dos primeiros três séculos eram pré-milenistas”.[13] Mas, a partir do quarto século prosperou o amilenismo com Agostinho. O pré-milenismo reviveu significativamente a partir do século XVII entre alguns protestantes.[14]

Atualmente, os evangélicos pré-milenistas se dividem em dois grupos básicos: os futuristas históricos modernos e os futuristas dispensacionalistas. Ambos são futuristas porque trocaram o método historicista dos Reformadores pelo futurismo da Contra Reforma, e substituíram a ênfase no papado como o anticristo para um indivíduo futuro que perseguirá os crentes.[15]

Segundo ambos, “o reino milenar ocorre na Terra. Apesar disso, enquanto os pré-milenaristas históricos futuristas consideram a igreja o verdadeiro Israel de Deus, os pré-milenaristas dispensacionalistas esperam que as profecias do Antigo Testamento sobre Israel se cumpram com a restauração literal da nação e do seu templo em Jerusalém”.[16]

Os dispensacionalistas ensinam equivocadamente um arrebatamento secreto na vinda de Cristo, e que no milênio todos os judeus se converterão e voltarão a ser o povo de Deus.[17] Por sua vez, os adventistas do sétimo dia são pré-milenistas bíblicos porque, conforme as Escrituras, eles ensinam que a segunda vinda de Cristo será um evento único, real, audível, visível, mundial, glorioso, a ocorrer no início do milênio (Mateus 24; Marcos 13; Lucas 21; João 14:1-3; Atos 1:9-11; 1 Coríntios 15:51-54; 1 Tessalonicenses 4:13-18; 5:1-6; 2 Tessalonicenses 2:7-10; 2:8; 2 Timóteo 3:1-5; Tito 2:13; Hebreus 9:28; Apocalipse 1:7; 14:14-20; 19:11-21).[18]

Um número literal

Não é por acaso que em Apocalipse 19:11-21 a vinda de Cristo está conectada ao início do milênio de Apocalipse 20, pois estes eventos estão em ordem cronológica.[19] E não é por acaso que João e Paulo nada falaram de arrebatamento secreto, pois o Senhor enviará Seus anjos “com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus” (Mateus 24:31, 32).

Igualmente, não é por acaso que Apocalipse 19 e 20 nada fala sobre evangelização, conversões e reino judaico sobre a Terra,[20] pois o objetivo da volta gloriosa de Cristo não será pregar, curar, produzir conversões e aqui reinar, mas levar remidos de todas as nações à Casa do Pai (João 14:1-3). O Senhor “descerá dos céus”, mas não colocará Seus pés no mundo, pois seu encontro com os salvos será “nos ares”, “e assim estaremos para sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:16, 17).

O retorno de Jesus dará início ao milênio vivido pelos salvos (Foto: Wallpaper Cave)

O efeito glorioso da vinda de Cristo sobre os ímpios será completamente aniquilador (2 Tessalonicenses 1:7, 8). A propósito, somente no dia da vinda de Cristo o ser humano remido receberá o dom da imortalidade (1 Coríntios 15:50-55). “Até aquele dia, a morte é um estado inconsciente para todas as pessoas” (Jó 19:25-27; Salmos 146:3, 4; Eclesiastes 9:5, 6, 10; Daniel 12:2, 13; Isaías 25:8; João 5:28, 29; 11:11-14; Romanos 6:23; 1 Coríntios 15:51-54; Colossenses 3:4; 1 Tessalonicenses 4:13-17; 1 Timóteo 6:15).[21] O reinado milenar de Cristo, com Seus santos no Céu, será entre a primeira e a segunda grande ressurreição. A primeira é a dos salvos. A segunda, a dos perdidos (Apocalipse 20:5).

Os adventistas do sétimo dia também creem que o período dos mil anos é literal,[22] pois o apóstolo João usou tempos simbólicos apenas para o tempo da graça, que terminará antes do retorno de Cristo (Apocalipse 15:8; 21:11-12). Por seis vezes, o apóstolo descreveu de modo natural os mil anos (20:2-7), enquanto anteriormente, em outras seis vezes, usou construções anormais para descrever tempos simbólicos (11:2, 3, 11; 12:6, 14; 13:5).

No início do milênio haverá duas classes de seres humanos: os salvos vivos e ressuscitados levados para o Céu, e os ímpios mortos, pois a terra ficará mil anos como um “abismo”, “sem forma e vazia” (Apocalipse 20:1, 2; Jeremias 4:23-26; Gênesis 1:2), onde Satanás nela circunscrito, e preso pela cadeia de circunstâncias, a ninguém poderá enganar e ferir até os ímpios ressuscitarem no final dos mil anos (Apocalipse 20:1,2, 5). A 27ª crença dos adventistas resume sua convicção sobre o milênio, a vindicação da justiça de Deus e o fim do pecado:

“O milênio é o reinado de mil anos de Cristo com seus santos no Céu, entre a primeira e a segunda ressurreição. Durante esse tempo serão julgados os ímpios mortos. A Terra estará completamente desolada, sem seres humanos vivos, mas ocupada por Satanás e seus anjos. No fim desse período, Cristo com seus santos e a Cidade Santa descerão do Céu à Terra. Os ímpios mortos serão então ressuscitados e, com Satanás e seus anjos, cercarão a cidade; mas fogo de Deus os consumirá e purificará a terra. O Universo ficará assim eternamente livre do pecado e dos pecadores (Jeremias 4:23-26; Ezequiel 28:18, 19; Malaquias 4:1; 1 Coríntios 6:2, 3; Apocalipse 20; 21:1-5)”.[23]

O dia da segunda vinda de Cristo está muito próximo. Você deseja fazer parte do Seu reino? Que Deus nos abençoe a fim de nos prepararmos para aquele dia!


Referências:

[1]Millard J. Erickson, Introducing Christian Doctrine (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1998), 386.

[2]“Exegese é a aplicação dos princípios da hermenêutica para chegar-se a um entendimento correto do texto”. Henry A. Virkler, Hermenêutica (Miami, FL: Editora Vida, 1990), 11.

[3]R. Kuehner, “Milenarism in the Bible” citado em Frank B. Holbrook, ed., 1ª ed. Simposio sobre apocalipsis-II (Del. Benito Juarez, México: Asociación Publicadora Interamericana, 2011), 286.

[4]Questões de doutrina, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009), 335, 176.

[5]Holbrook, 286.

[6]Virkler, 43.

[7]Questões de Doutrina, 176.

[8]George Ladd, Crucial Questions about the Kingdom of God (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1952), 149.

[9]Erickson, Introducing Christian Doctrine, 383.

[10]Holbrook, 288.

[11]Ibídem.

[12]Millard J. Erickson, Contemporary Options in Eschatology: um study of the milennium (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1983, 76.

[13]Holbrook, 288.

[14]Ibídem.

[15]Para um estudo sobre o historicismo e o futurismo, ler o artigo “História da Interpretação de Daniel” em: Francis D. Nichol, ed., Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), vol. 4, 26-66;

O Cavalo de Troia da contrarreforma: https://noticias.adventistas.org/pt/coluna/wilson-borba/o-cavalo-de-troia-da-contrarreforma

[16]Eric Claude Webster, “O Milênio”, editado por Raoul Dederen, Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011), 1039.

[17]Dwight K. Nelson, Ninguém Será Deixado Para Trás, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004). Hans K. LaRondele, O Israel de Deus na Profecia, 1ª ed. (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2002); Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, 1038-1045.

Sutilezas do dispensacionalismo: https://noticias.adventistas.org/pt/coluna/wilson-borba/sutilezas-do-dispensacionalismo

[18]Textos citados da Crença Fundamental nº 25: “A Segunda Vinda de Cristo”. Manual da Igreja, 22ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016), 176.

[19]Questões sobre Doutrina, 339.

[20]Para compreender a impossibilidade de um futuro reino judaico na Terra, ler o artigo: “O Papel de Israel nas Profecias do Antigo Testamento” em: Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 4, 12-25.

[21]Crença Fundamental nº 26: “Morte e Ressurreição”. Manual da Igreja, 176.

[22]Holbrook, 298.

[23]Crença Fundamental nº 27: “O Milênio e o Fim do Mundo”. Ibídem. Sobre o julgamento milenial dos ímpios mortos, e como os santos comprovarão a justiça de Deus em ter deixado os rebeldes fora de Seu reino (1Coríntios 6:2, 3), ver: Questões de Doutrina, 342-345.