Fundamentos bíblicos do sábado do sétimo dia

Vários textos bíblicos fundamentam a teologia do sábado do sétimo dia. Neste breve artigo estudaremos apenas dois ligados à Criação. O primeiro é Gênesis 2:1-3. “Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército. E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera”.

Como confirma Strand[1], embora neste texto não apareça o substantivo hebraico shabbath (sábado), que significa descanso, por duas vezes ocorre o verbo hebraico shabath, descansou.

A etimologia aponta somente o dia de sábado histórico como o sétimo dia da semana da Criação, no qual Deus pôs tríplice distinção: Ele descansou, abençoou e santificou.

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(a) Ao descansar no sétimo dia, Deus providenciou um modelo oficial ao homem. O Novo Testamento confirma que Ele fez o sábado para o homem (Marcos 2:27). Conforme Hasel, “Deus estabeleceu o modelo para Sua criação”.[2] Parece evidente que o homem, feito à imagem de Deus, também deveria descansar no dia de descanso do seu Criador (Gênesis 1:27). Em acordo, LaRondelle afirma que a imago Dei (imagem de Deus) sugere a imitatio Dei (imitação de Deus).[3]

(b) Aquele que descansou no sétimo dia foi o próprio Filho de Deus. “Foi a segunda Pessoa da eterna Divindade, o Criador mencionado em Gênesis 2:1-3 que estabeleceu o sábado original (João 1:1-3, 14; 1Coríntios 8:6; Colossenses 1:16, 17; Hebreus 1:1-2)”.[4] Logo, o Criador é o mesmo Senhor do sábado (Marcos 2:28; Apocalipse 1:10).

(c) Ao descansar no sábado, Deus estabeleceu-o como perpétuo dia da alegria pela Criação concluída. Mas seu repouso não foi de “exaustão”, pois o Criador “não se cansa nem se fatiga” (Isaías 40:28). Não foi restaurativo, porém conclusivo, e de “satisfação” pela Sua obra criada[5], pois “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31). A propósito, Adão e Eva não estavam cansados ao participar do repouso e alegria do Criador. Em sua perfeição, e inocentes atividades do Éden, eles não conheciam nosso peculiar cansaço e estresse (2:15). “Depois, porém, da queda do homem, (o sétimo dia) proporcionou também o necessário repouso físico” (Gênesis 3:17-19).[6] Ao descansarmos no sábado podemos usufruir refrigério físico e mental, e mais que isso: podemos “nos alegrar na criação de Deus, e por atuarmos como Seus mordomos responsáveis sobre a criação” (Gênesis 1:27-28).[7]

(d) Deus abençoou exclusivamente o sétimo dia para um propósito superior (Gênesis 2:3). A palavra abençoou é tradução do termo hebraico bamkh, usado em Gênesis 1:22 e 28, sobre os animais e a humanidade, a fim de se multiplicarem.[8] Implica em uma bênção divina, ativa e permanente.[9] Mas, ao abençoar o sétimo dia, Deus tinha um propósito espiritual. O homem necessitava permanentemente do sábado para manter comunhão e adorar o Criador (Apocalipse 14:7), “para que pudesse de maneira mais ampla contemplar as obras de Deus, e meditar em seu poder e bondade”.[10]

(e) O ato do Criador de abençoar o sétimo dia implica na sua instituição como memorial da Criação e em bênçãos reservadas aos que o guardam fielmente (Isaías 56:2-7). “Ele repousou no sétimo dia, abençoou-o como o dia do Seu repouso e o deu aos seres que criou, para que eles pudessem lembrar-se dEle como o Deus vivo e verdadeiro”.[11]

(f) Deus apartou o sábado exclusivamente para uso santo (Isaías 58:13-14). Este é o terceiro aspecto distintivo do sétimo dia. O significado mais básico do termo hebraico qadash (santificar) é separação.[12] O sábado foi santificado para culto e adoração, assim como foi o costume do Filho de Deus (Lucas 4:16). Mas por que Deus abençoou e santificou somente o sábado do sétimo dia? É uma questão inteiramente da autoridade divina, e da diferença mais básica entre Deus e os homens. Ele é o Criador e nós Suas criaturas.

(g) A instituição do sábado precede a entrada do pecado no mundo. Portanto, o sábado “nada tem de prefigurativo, ou de aplicação restrita a qualquer povo”.[13] Adão e Eva não eram judeus (Lucas 3:38), os quais vieram a existir somente milhares de anos depois. A instituição do sábado do sétimo dia como dia santo de repouso é tratado em Gênesis como assunto universal, e nunca nacional.

(h) Ao descansar no sétimo dia, abençoá-lo e santificá-lo, Deus tinha o propósito de entrar em aliança de amor com Adão e seus descendentes (ver Isaías 56:4-7). Para Karl Barth “a história da aliança foi realmente estabelecida no evento do sétimo dia”.[14]

Aliança perpétua

O segundo texto essencial para fundamentar a teologia do sábado é Êxodo 20:8-11: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou”. A seguir, alguns aspectos referentes ao quarto mandamento.

(1) Deus destacou este mandamento, colocando o sábado no centro da Sua aliança, os Dez Mandamentos, e depois, dentro da Arca da Aliança (Deuteronômio 4:13; Êxodo 31:18; 1 Reis 8:9; 2 Crônicas 5:10).

(2) O quarto mandamento é o único que identifica o Senhor como Criador do céu e da Terra. A conexão de Êxodo 20:8-11 com Gênesis 2:1-3 também deixa claro que a guarda do santo sábado não surgiu no Sinai. Lá Deus reafirmou o dever de todo homem (Eclesiastes 12:13; Gênesis 26:5). De fato, os que obedecem a Deus e guardam o sábado igualmente recebem a bênção do patriarca Jacó (Isaías 58:13-14). “Ao observarmos o sábado, demonstramos reconhecer a Deus como o Deus vivo, Criador do céu e da Terra”.[15] Não é por acaso que o mundo está tomado pela “idolatria, ateísmo e incredulidade”.[16]

(3) “O sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus”. Bondosamente, Deus confirmou o óbvio no Sinai. O sétimo dia da semana, no tempo de Moisés, era o mesmo santo sábado do Senhor desde a Criação. Como alguém disse, “não existe um sábado fora do sétimo dia, e nenhum sétimo dia fora do sábado”. Deus relacionou no mandamento aspectos comuns do homem: teu trabalho, teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, teu animal. Porém, note a declaração: “Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus”. Em Isaías 58:13 também foi ordenado ao homem que retire seu pé do sábado, por ser o “santo dia do Senhor”. O Criador ainda reivindica ser o Senhor do sábado (ver Lucas 6:5). “Deus santificou o sétimo dia. Essa porção específica de tempo, separada pelo próprio Deus para culto religioso, continua hoje tão sagrada como quando pela primeira vez foi santificada pelo nosso Criador”.[17]

(4) O Senhor ordenou ao homem lembrar e santificar o sábado do sétimo dia. Isto requer união com Deus, pois “a fim de santificar o sábado, os homens precisam ser eles próprios santos. Devem, pela fé, tornar-se participantes da justiça de Cristo”.[18] Logo, o sábado é um sinal distintivo de que o Criador nos santifica e que Ele é o nosso Deus (Ezequiel 20:12, 20).

Evidentemente que a ordem para lembrar também implica na óbvia existência do santo sábado antes do Sinai (ver Êxodo 16:1-36).

Afinal, como poderia alguém recordar algo que não existia? Outra implicação óbvia decorrente da ordem divina de lembrar é que o ciclo semanal não fora perdido do Éden ao Sinai. Caso contrário, ninguém poderia guardar o verdadeiro dia de descanso. De fato, os dias da semana da Criação foram sete “períodos de tempo de 24 horas, literais, históricos, contínuos, e contíguos”[19], assim como na semana dos dias de Moisés e de Cristo (Lucas 4:16; 23:54-56). Afinal, por que razão santificar um dia de 24 horas como memorial de uma criação supostamente ocorrida durante milhões de anos?

(5) A guarda do quarto mandamento requer abstinência de atividades seculares nas horas sagradas do dia do sábado. A ordem: “Nesse dia não farás trabalho algum” é igualmente extensiva aos filhos, empregados, animais e ao “estrangeiro dentro das tuas portas”. O motivo é o mesmo apresentado em Gênesis 2:1-3: “Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou”. 

O anjo de Apocalipse 14:6 e 7 convida o mundo inteiro para adorar “aquele que fez o Céu, e a Terra, e o mar, e as fontes das águas”. Deus não esqueceu do seu sábado do sétimo dia. Que nós façamos o mesmo para Sua glória (verso 6).


Referências:

[1]Kenneth A. Strand, “O Sábado” em Tratado de teologia adventista do sétimo dia, editado por Raoul Dederen, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2011), 551. A seguir: Strand.

[2]Gerhard Hasel “El Sábado en el Pentateuco”, editado por Strand em El sábado en las Escrituras y en la historia, 8. A seguir: Hasel.

[3]Hans K. Larondelle, Nosso Criador Redentor: Introdução à teologia bíblica da aliança, 1ª ed. (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2016), 8.

[4]Questões sobre doutrina, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2009), 138.

[5]Roy E. Gingrich, The Book of Genesis (Memphis, TN: Riverside Printing, 1998),  9.

[6]Questões sobre doutrina, 138.

[7]Hasel, 8.

[8]Strand, 551.

[9]Ibidem.

[10]Ellen G. White, Patriarcas e profetas, 16ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), 48.

[11]_______, Conselhos sobre saúde, 4ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), 357-358.

[12]Strand, 12.

[13]White, Patriarcas e profetas, 48.

[14]Karl Barth, Church Dogmatics: The doctrine of creation, 1ª ed. (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, v. III, 2010), 217.

[15]Ellen G. White, Cristo triunfante, MM 2002 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira), 18.

[16]_______, O grande conflito, 43ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), 438.

[17]_______, Conselhos sobre mordomia, 5ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012), 66.

[18]_______, O Desejado de Todas as Nações, 22ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013), 283.

[19]Norman R. Gulley, Systematic Theology: Creation, Christ, Salvation (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2012), 49.

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