Marcas da infância

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Pais devem estar atentos às necessidades dos filhos para atendê-las de forma equilibrada.

A infância é um período de tremendo aprendizado. E não se trata apenas de conteúdos acadêmicos, mas também do desenvolvimento de hábitos, da personalidade, da autoimagem, das habilidades emocionais, etc. É na infância que construímos os adultos.

Quando atendo meus pacientes adultos, percebo que eles não vivem simplesmente  as dores relativas a esse período recente da vida, mas experimentam agora os efeitos (positivos e negativos) que a infância deixou em seu ser. Ainda que a demanda no consultório pareça ser apenas uma “simples” orientação para mudança de carreira, é como se, em cada um deles, houvesse uma criança ferida, uma história de necessidades não supridas.

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Em Provérbios 22:6 lemos: “Educa a criança no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele.” A escritora Ellen White também destacou os efeitos daquilo que se vive na infância: “Muitas crianças, por falta de palavras de encorajamento e de um pouco de ajuda em seus esforços, ficam desanimadas e mudam de uma coisa para outra. Este lamentável defeito as acompanha por toda a vida” (Conselhos sobre Educação, pág. 18).

Na psicologia temos diferentes teorias e abordagens que orientam nossa prática clínica. Todas elas consideram relevante o período da infância e suas influências na vida adulta. A Terapia do Esquema é um método dentro da abordagem Cognitivo-Comportamental que nos ajuda a compreender bastante essa relação de causa e efeito. De acordo com essa terapia, todo ser humano possui cinco necessidades emocionais fundamentais:

  1. Vínculos seguros com outros indivíduos;
  2. Autonomia, competência e sentido de identidade;
  3. Liberdade de expressão;
  4. Espontaneidade e lazer;
  5. Limites realistas e autocontrole.

Um indivíduo psicologicamente saudável, nesta perspectiva terapêutica, é aquele que consegue satisfazer essas necessidades adequadamente. De acordo com as experiências de vida que temos, podemos desenvolver esquemas (padrões emocionais e cognitivos) adaptativos ou desadaptativos. De acordo com Young, Klosko e Weishaar (2008), há quatro tipos de experiências na infância que estimulam o desenvolvimento de esquemas desadaptativos:

  1. Frustração nociva de necessidades: quando a criança passar por poucas experiências boas e seu ambiente é deficiente em oferecer estabilidade, compreensão e amor.
  2. Traumatização ou vitimização: quando se causa dano à criança e ela se torna vítima (por exemplo, agressões e abusos).
  3. Excesso de cuidados e ausência de limites: quando a criança vive uma vida com grande quantidade de experiências boas, de modo que algo que seria bom se torna excessivo. Não são estabelecidos limites e o excesso de cuidado pode resultar numa superproteção.
  4. Internalização ou identificação seletiva com pessoas importantes: quando a criança internaliza pensamentos, sentimentos, experiências e comportamentos dos pais como sendo dela.

Tudo isso reflete na vida adulta na forma de dificuldades para tomar decisões, para concluir aquilo que iniciou, para receber e demonstrar afeto, baixa autoestima, constante ansiedade, entre várias outras queixas que levam as pessoas a buscarem ajuda profissional. Se você é pai ou mãe, considere com carinho e responsabilidade a tarefa de suprir, de forma adequada (equilibrada), as necessidades do seu filho. Isso terá efeitos por toda a sua vida. Se você é um adulto que carrega marcas negativas da infância e tem tido dificuldade em superá-las, busque ajuda profissional. Ainda que a origem do problema esteja no passado, há muito que podemos fazer por nossa saúde mental no presente.


Referências

YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed, 2008.

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