O terceiro Elias – parte 2

“Que fazes aqui, Elias?”,  disse Deus, com o objetivo de despertar a conciência entorpecida do profeta. Depois da grande vitória no monte Carmelo, Elias fugiu para outro monte, o Horebe. Embora ele quisesse se esconder dos inimigos e abandonar a missão, o Senhor o animou a seguir pelo caminho do deserto, pois havia um remanescente de sete mil homens que não tinham se prostrado diante de Baal (1Reis 19:15-18). Em outras palavras, podemos dizer homiléticamente que o profeta Elias deveria ser uma voz clamando no deserto.

No texto anterior, vimos que o mensageiro escatológico do último livro do Antigo Testamento é chamado de Elias (Malaquias 4:5). Aprendemos também que essa profecia se cumpriu apenas parcialmente na vida e no ministério de João Batista, que pregou uma mensagem de advertência e reconciliação fundamentado em Malaquias e em Isaías (Lucas 1:15-17; 3:7, 9; João 1:19-23).

No entanto, o conceito mais importante apresentado no texto anterior era o de que, no futuro, outro mensageiro, à semelhança de João Batista, deveria ser escolhido para exaltar a “Lei de Moisés”, preparar um povo para “o grande e terrível Dia do Senhor” e converter o “coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais” (Malaquias 4:3-6).

Neste artigo, daremos sequência ao anterior e desvendaremos alguns dos mistérios relacionados ao mensageiro profético de Malaquias, levantando algumas questões importantes sobre a escatologia adventista, especialmente no que se refere à missão para com o povo judeu.

O mensageiro apocalítico

O livro do Apocalipse parece identificar esse personagem misterioso. No capítulo 14, o apóstolo João  descreveu um anjo com um evangelho eterno para pregar a cada nação, tribo, língua e povo. O termo “anjo”, do grego angelos, também pode ser traduzido como “mensageiro”. Aliás, essa é a mesma palavra utilizada pela Septuaginta para “mensageiro” em Malaquias 3:1.

O apóstolo identificou esse mensageiro em Apocalipse 14:12: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus”. É curioso notar que João retratou o remanescente apocalítico com as duas características distintivas do Elias profético: (1) a fiel obediência à lei de Deus; (2) a fé na salvação oferecida pelo Messias (ver Malaquias 4:2, 4). Além disso, apresentou-o como o mensageiro de Deus que antecede o derramamento das pragas de Apocalipse 15 e 16, isto é, antes de a Terra ser ferida com “maldição” no “grande e terrível Dia do Senhor” (Malaquias 4:6).

O Tratado de Teologia (CPB, 2014), nas páginas 981 e 982, confirma essa conclusão: “Os adventistas acreditam ser […] um movimento profético com a missão de preparar um povo em todas as partes da Terra para o aparecimento de Cristo. Consideram-se coletivamente o cumprimento do prometido Elias em Malaquias 4:5 e 6, enviado por Deus para ‘restaurar todas as coisas’.”

A identificação do remanescente apocalíptico como o Elias profético também é apoiada pelos escritos de Ellen White. Por exemplo, no devocional A Fé Pela Qual Eu Vivo, página289, a mensageira do Senhor afirmou: “As palavras finais de Malaquias são uma profecia concernente à obra que deveria ser feita como preparação tanto no primeiro quanto no segundo advento de Cristo. […] Neste tempo de iminente apostasia mundial, Deus convoca Seus mensageiros para proclamar Sua Lei no espírito e poder de Elias. Como João Batista, ao preparar um povo para o primeiro advento de Jesus, chamava a atenção deles para os mandamentos, assim devemos dar, não com sonido incerto, a mensagem: ‘Temei a Deus e dai-Lhe glória, porque vinda é a hora do Seu juízo’ (Apocalipse 14:7). Com o fervor que caracterizou Elias, o profeta, e João Batista, devemos nos empenhar em preparar o caminho para o segundo advento de Jesus.”

Moisés e Elias

Como vimos, os livros de Malaquias e Apocalipse nos mostram que o Elias profético deveria unir a mensagem da lei com a da iminente vinda do Messias. Contudo, os dois testemunhos inspirados parecem sugerir algo mais. Ao relacionar as figuras de Moisés e Elias, os maiores profetas de Israel, é possível que ambos os registros sagrados quisessem representar a totalidade da revelação bíblica e, por extensão, os dois povos que a preservaram: Israel e a igreja.

Jacques Doukhan, no livro Secretos del Apocalipsis (ACES, 2008, p. 103), observou que Malaquias 4:2 a 6 “têm uma orientação dupla. A primeira remete ao passado. É um apelo para recordar o Antigo Pacto e permanecer fiel a ele. Nesse caso, Moisés representa o Antigo Testamento. […] A segunda orientação, que envolve Elias, aponta para o futuro. É a promessa da vinda do Messias […]. Moisés nos dirige à Torá, enquanto Elias nos leva à esperança messiânica do Novo Testamento.”

Quanto ao Apocalipse, já está bem estabelecido na literatura que João empregou imagens relacionadas a Moisés e Elias para caracterizar as duas testemunhas do capítulo 11. Segundo o apóstolo, sai “fogo” da boca das testemunhas para devorar os inimigos (verso 5; conferir 1Reis 18); “elas têm autoridade para fechar o céu, para que não chova” (verso 6a; conferir 1Reis 17:1); “têm autoridade também sobre as águas, para convertê-las em sangue, bem como para ferir a terra com toda sorte de flagelos” (verso 6b; conferir Êxodo 7–11); são “dois profetas” (verso 10; conferir Deuteronômio 34:10; 1Reis 18:36); foram arrebatadas para o Céu (verso 12; conferir 2Reis 2:11, 12; Mateus 17:3; Judas 9); e deveriam profetizar durante 1.260 dias/anos proféticos, o equivalente a três anos e meio simbólicos, o mesmo tempo que Elias orou para que não chovesse em Israel (verso 3; conferir Lucas 4:25; Tiago 5:17).

No livro O Grande Conflito, página 267, Ellen White disse claramente que “as duas testemunhas representam as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento”. Entretanto, no quarto volume dos Testemunhos Para a Igreja, na página 594, ela empregou a fraseologia bíblica referente às duas testemunhas para retratar a igreja. Isso quer dizer que, metonimicamente, a perseguição da Palavra de Deus implica a perseguição do povo de Deus, e a perseguição do povo de Deus implica a perseguição da Palavra de Deus.

Dessa maneira, ao mesmo tempo em que as duas testemunhas representam os dois Testamentos da revelação divina, elas também poderiam simbolizar os dois povos que lutaram para preservá-los e que foram brutamente perseguidos durante os 1.260 dias/anos. Para não deixar dúvidas, João usou esse mesmo período profético para se referir à perseguição do povo de Deus ao longo da história (Apocalipse 11:3; 12:6).

Um ministério de reconciliação

A declaração mais enigmática a respeito do Elias profético se encontra em Malaquias 4:6: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias […]; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais”. Considerando o contexto escatológico da passagem e a simbologia vinculada a Moisés e Elias, parece que o profeta Malaquias quis se referir à união do povo de Deus mais do que à do círculo familiar. Essa provavelmente seja a ideia em Lucas 1:17, que fala sobre “habilitar para o Senhor um povo preparado”, e Eclesiástico 48:10, em que a expressão “reconduzir o coração dos pais aos filhos” é paralela a “restabelecer as tribos de Jacó” – no último caso, embora não se trate de um livro canônico, seu texto pode nos ajudar a entender como esse verso era compreendido no período intertestamentário.

É possível que o profeta tivesse em vista a restauração final da família de Deus, à semelhança do que Paulo proclamou aos gentios: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus” (Efésios 2:19). Separados ao longo da história, o povo judeu e a igreja cristã são duas vozes da revelação divina. Cada um desses povos preservou um testemunho das Escrituras, um feixe de luz em meio às nuvens escuras do obscurantismo e do preconceito que caracterizaram boa parte da história. Nesse contexto de separação entre as testemunhas históricas da revelação divina, a voz conciliadora do remanescente se torna ainda mais necessária. Portanto, o terceiro Elias, que une as duas revelações, deve não apenas apresentar um evangelho eterno e indivisível, mas reunir a família de Deus.

Impacto na missão adventista

Como o Elias profético de Malaquias e a voz que clama no deserto de Isaías, a Igreja Adventista do Sétimo Dia é desafiada não apenas a exaltar a lei de Deus e a preparar o mundo para a vinda de Jesus, mas também a exercer um ministério de reconciliação. Foi eleita para ser a voz que clama no deserto e confortar o povo judeu: “Consolai, consolai o Meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do Senhor por todos os seus pecados. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus” (Isaías 40:1-3).

Para desempenhar totalmente seu papel profético, o remanescente apolíptico não pode negligenciar a missão para com o povo judeu. Somente depois de cumprir a missão delineada em Isaías 40:1 a 3 é que a promessa do verso 5 finalmente se cumprirá: “A glória do Senhor se manifestará, e toda a carne a verá, pois a boca do Senhor o disse.”

No livro Atos dos Apóstolos, páginas 380 e 381, Ellen White aconselhou: “Quando esse evangelho for apresentado em sua plenitude aos judeus, muitos aceitarão a Cristo como o Messias. Entre os ministros cristãos, há poucos que se sentem chamados a trabalhar pelo povo judeu; porém, aos que têm sido passados por alto, bem como a todos os outros, deve chegar a mensagem de misericórdia e esperança em Cristo. Na proclamação final do evangelho, quando deverá ser feito um trabalho especial pelas classes de pessoas até então negligenciadas, Deus espera que Seus mensageiros tenham interesse especial pelo povo judeu, que se encontra em todas as partes da Terra. Quando as Escrituras do Antigo Testamento forem relacionadas com o Novo em uma explanação do eterno propósito de Jeová, isso será para muitos judeus como o raiar de uma nova criação, a ressurreição da esperança.”

Em uma de suas cartas, ela também afirmou: “Um espírito estranho tem sido revelado entre nosso povo, mas agora deve haver um despertar. Existe uma obra missionária verdadeira e sincera a ser realizada em favor dos judeus. Algo está sendo feito, mas isso não é nada comparado ao que poderia ser realizado. Falhamos em conduzir essa obra como deveríamos. Que o povo do Senhor ore e medite sobre esse assunto!” (Carta 42, 1912).

Quando a igreja simbolicamente vestir o manto de Elias e se encher do poder que caracterizou esse profeta, “haverá muitos conversos entre os judeus”, disse Ellen White, “e esses conversos ajudarão a preparar o caminho do Senhor e fazer no deserto caminho direto para nosso Deus. Judeus conversos hão de ter parte importante a desempenhar nos grandes preparativos a serem feitos no futuro para receber a Cristo, nosso Príncipe. Nascerá uma nação em um dia. Como? Por homens que Deus designou se converterem à verdade. Ver-se-á ‘primeiro, a erva, depois, a espiga e, por último, o grão cheio na espiga’ (Marcos 4:28). Cumprir-se-ão as predições da profecia” (Evangelismo, p. 579, itálico acrescentado).

Há milênios os judeus têm aguardado ansiosamente a manifestação poderosa do profeta Elias, que restaurará todas as coisas e trará consigo a redenção final. Como mencionado no artigo anterior, a cada semana eles entoam a canção Eliyahu HaNavi, convidando esse mensageiro de boas-novas à sua casa para lhes apresentar o Messias, filho de Davi. Mas por que Elias tarda tanto a aparecer? Será que ele está fugindo de sua missão, escondendo-se no monte da lei? Hoje, a pergunta que Deus faz a Seu povo é: “Que fazes aqui, Elias?”


André Vasconcelos é mestre em Teologia Bíblica e doutorando em Antigo Testamento. Atualmente, trabalha como editor na Casa Publicadora Brasileira.

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