A espiritualidade é parte inerente do ser humano, e fundamental para a sua plenitude. Colocar Deus no centro das decisões, até as mais práticas podem se tornar atos de adoração.
Após a queda do homem e da mulher, Deus fez uma extraordinária promessa para aquele casal angustiado: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar” (Gênesis 3:15).
Ao dar à luz o seu primeiro filho, Eva imaginou que o descendente da promessa chegara ao mundo para salvá-los, e declarou: “Adquiri um varão com o auxílio do Senhor” (Gênesis 4:1). O texto em hebraico, no entanto, deixa mais claro o que ela quis dizer: “Adquiri um varão, o Senhor”. Na esperança de que ele fosse o Libertador
prometido, deu-lhe o nome de Oayin (traduzido como Caim), que significa “adquirido” (Comentário Bíblico Adventista, vol. 1, p. 44).
Mesmo frustrada ao entender que o momento da redenção não havia chegado, Eva não perdeu a esperança e, juntamente com o seu marido, tentou preparar seus filhos para a vinda do Messias. Posso imaginá-la tomando-os no colo e, entre lágrimas e sorrisos, contando a história da queda e da promessa de um Redentor. Além disso, ela os ensinava a maneira como deveriam adorar a Deus, de acordo com as instruções que haviam recebido diretamente dEle.
Segundo o teólogo Warren Wirsbe, “quando Deus vestiu Adão e Eva com peles de animais (Gênesis 3:21), talvez tenha lhes ensinado sobre os sacrifícios e o derramamento de sangue. É possível que eles, por sua vez, tenham passado essa verdade para seus filhos. A verdadeira adoração é algo que devemos aprender com o próprio Deus, pois somente Ele tem o direito de determinar as regras para nos aproximarmos dele e para lhe agradar em adoração” (Comentário Bíblico Expositivo, vol. 1, p. 43).
Caim e Abel entendiam a maneira correta de adoração e o que ela representava. Ellen White comenta que eles “estavam cientes da providência tomada para a salvação do homem, e compreendiam o sistema de ofertas que Deus ordenara. Sabiam que nessas ofertas deveriam exprimir fé no Salvador a quem tais ofertas tipificavam, e ao mesmo tempo reconhecer sua total dependência dEle, para o perdão; e sabiam que, conformando-se assim ao plano divino para a sua redenção, estavam a dar prova de sua obediência à vontade de Deus” (Patriarcas e Profetas, p. 40).
Essas instruções foram devidamente acatadas por Abel, mas não por seu irmão. A Bíblia diz que, “ao fim de um certo tempo, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. O Senhor se agradou de Abel e de sua oferta, mas de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gênesis 4:3- 5). Que lições podemos extrair da experiência desses dois irmãos? Eu ressalto, pelo menos, três:
A oferta é um ato de adoração estabelecido por Deus
Tanto as ofertas dos irmãos como as que apresentamos hoje a Deus devem ser entregues conforme o Seu desejo e orientação. Em uma época de tanto relativismo, em que o “eu” determina quase tudo, é preciso saber, exatamente, o que Deus espera de nós. Sim, a oferta deve vir do coração (2 Coríntios 9:7), mas seguindo as orientações da Palavra, expressando integridade (Malaquias 3:7-8), espontaneidade (Êxodo 25:2-8) e gratidão (2 Coríntios 9:7).
A oferta não deve estar centralizada no homem, mas em Deus
Caim achava “que seria um reconhecimento de fraqueza seguir exatamente o plano indicado por Deus, confiando sua salvação inteiramente à expiação do Salvador Prometido. Preferiu a conduta da dependência própria. (…) Apresentou sua oferta como um favor feito a Deus, pelo qual esperava obter a aprovação divina” (Patriarcas e Profetas, 41).
O critério da sua decisão foi o seu próprio entendimento, demonstrando total indiferença à autoridade divina.
A oferta deveria apontar para Cristo, com sacrifício e derramamento de sangue. Para o professor Bruce K. Waltke, Caim fracassou em sua teologia, e isso afetou sua ética, seu comportamento e sua oferta (Comentário de Gênesis, p. 100).
Ao adorarmos, não devemos estabelecer critérios humanos, nem usar de chantagem, barganha e interesses materiais de um coração cheio de si, mas seguir as orientações de Deus e da Sua Palavra, oferecendo exatamente aquilo que Ele espera de nós.
A oferta deve reconhecer que tudo vem de Deus
Ao apresentar sua oferta no altar, Caim não levou em conta que ela deveria apontar para o seu Redentor. Infelizmente, “a classe de adoradores que segue o exemplo de Caim inclui a grande maioria do mundo; pois quase toda a religião falsa tem-se baseado no mesmo princípio – de que o homem pode confiar em seus próprios esforços para a Salvação” (Patriarcas e Profetas, p. 41).
Nossas ofertas precisam expressar nossa total dependência de Deus e Sua centralidade em nossa vida. Devemos ter em mente não que estamos subsidiando projetos, eventos ou campanhas, mas que estamos entregando nas
mãos dAquele que sustenta a nossa vida e é digno da nossa fidelidade.
As palavras inspiradas do livro Caminho a Cristo (p. 37) devem ser o vetor de todo verdadeiro cristão: “Se somos de Cristo, sempre estaremos pensando nEle; nossos mais doces pensamentos nEle se concentrarão. Tudo o que temos e somos será consagrado a Ele. Teremos o desejo de refletir Sua imagem, possuir Seu Espírito, fazer Sua vontade e agradá-Lo em todas as coisas”.
Este texto foi originalmente publicado na revista AFAM, edição de 1º Trimestre, ano 2021.
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