Arqueólogo adventista explica sobre páginas perdidas do Novo Testamento
Rodrigo Silva analisa achados sobre manuscritos do Novo Testamento, uma inscrição em Laquis e uma estátua atribuída a Ramsés II

Três descobertas arqueológicas ligadas à Bíblia Sagrada ganharam destaque na mídia nas últimas semanas e geraram repercussão. Segundo o arqueólogo adventista Rodrigo Silva, nem sempre tais notícias traduzem o que os achados de fato revelam. Em vídeo publicado em seu canal no YouTube, ele analisou cada caso e o que as descobertas significam e, sobretudo, o que não significam.
Páginas perdidas do Novo Testamento
A primeira descoberta circulou com o título 42 páginas perdidas do Novo Testamento. A notícia foi divulgada originalmente pela Universidade de Glasgow, na Escócia, onde uma equipe internacional liderada pelo professor Garrick Allen recuperou 42 páginas do Codex H, um dos mais importantes manuscritos do Novo Testamento. O códice, uma cópia do sexto século das cartas de Paulo, desapareceu após ser desmontado no século 13 no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos, na Grécia. Suas páginas foram reutilizadas como material de encadernação em outros manuscritos.
Silva foi direto quanto ao impacto real: “a sua Bíblia continua com 27 livros no Novo Testamento e esse achado até reforça a segurança com a qual a Bíblia foi copiada”. A chave da descoberta foi a imagem multiespectral, ou seja, a nova tinta aplicada pelos monges causou impressões espelhadas nas páginas adjacentes. Tais imagens são normalmente invisíveis a olho nu, mas legíveis sob técnicas avançadas. A datação por carbono confirmou a origem do pergaminho no século sexto.
Além do texto em si, as páginas revelam o chamado aparato de Eutálio. Segundo o arqueólogo, trata-se de um sistema de prefácios, comentários marginais e marcadores litúrgicos criado entre os séculos 4 e 7. Os fragmentos mostram como escribas antigos corrigiam, anotavam e interagiam diretamente com os escritos sagrados. Uma anotação marginal encontrada nas páginas afirma que “Platão e Plutarco se calem diante de Basílio”. Para Silva, isso refuta a ideia de que os monges copiavam textos de forma mecânica: “Havia um desígnio litúrgico no texto. Os monges faziam anotações, havia um aparato crítico”, ressaltou.
Para o especialista, as páginas de fato estavam desaparecidas, mas a maneira como isso foi divulgado dá a falsa ideia de que textos inéditos foram descobertos, obrigando revisões na Bíblia.
Inscrição em Laquis e autoria do Gênesis
O segundo achado Silva apresenta com interesse particular, pois ele próprio participou da escavação. Em Laquis, uma importante cidade depois de Jerusalém em termos histórico-bíblicos, a equipe do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), que mantém parceria com a Universidade Hebraica de Israel e a Southern Adventist University, encontrou um fragmento de cerâmica numa camada do final do período do Bronze, anterior a 1200 antes de Cristo.
O epigrafista Daniel Vainstub identificou no óstraco (cerâmica inscrita) a expressão “Baal Shalit”. Segundo Rodrigo Silva, provavelmente é um nome próprio teofórico (relativo a alguma divindade), que significa “Baal governa”. A palavra shalit é a mesma usada em Gênesis 42 para descrever José como “governador sobre a terra”. Críticos do texto bíblico usavam esse termo como prova de que o relato em Gênesis seria uma composição tardia, do período persa e, portanto, impossível de ter sido escrito por Moisés. A inscrição de Laquis demonstra que o vocábulo já circulava pelo menos antes de 1200 a.C., derrubando o argumento.
O achado também empurra a história da escrita para trás: o texto é pelo menos dois séculos mais antigo do que o alfabeto fenício, até então considerado por muitos o berço da escrita alfabética.
Estátua de Ramsés II e o faraó do Êxodo
O terceiro achado citado pelo arqueólogo adventista é uma estátua colossal encontrada em Tell el-Farama, no Delta do Nilo, atribuída ao faraó egípcio Ramsés II (1279–1213 a.C.). A estátua possui uma cabeça e tronco medindo 2,2 metros e pesando entre 5 e 6 toneladas. A peça reacendeu o debate sobre a identidade do faraó do Êxodo.
Durante a live, Rodrigo Silva afirmou que não acredita nessa teoria popular sobre a identidade do faraó do período de escravidão dos hebreus no Egito. Para ele, o faraó do Êxodo foi Tutmósis III e, para isso, apresenta quatro argumentos.
O primeiro é cronológico. No livro bíblico de I Reis 6.1 é dito que Salomão iniciou o templo 480 anos após o êxodo. O quarto ano de Salomão corresponde a 966 a.C. Somando os 480 anos, chega-se a 1446 a.C., ou seja, quase dois séculos antes de Ramsés II. O segundo argumento vem de Juízes 11.26: Jefté afirma que Israel habitava Canaã há 300 anos. Situando Jefté por volta do ano de 1100 a.C. e acrescentando os 40 anos no deserto, o Êxodo cai em torno de 1440 a.C., uma data convergente com a anterior.
O terceiro argumento é arqueológico: quando Ramsés II governava, Jericó já estava desabitada, o que contradiz a narrativa de Josué 6. E a quarta razão apresentada por Rodrigo diz respeito à presença militar egípcia em Canaã: na época de Tutmósis III, ela era menos consolidada, coincidindo melhor com a descrição dos livros de Josué e Juízes.
Quanto à menção da cidade de Ramsés em Êxodo 1.11, argumento central dos defensores da tese, Silva a explica como atualização editorial do texto, prática documentada na transmissão de manuscritos antigos. A cidade original era Avares, capital dos hicsos, onde há evidências arqueológicas da presença hebraica.
Ramsés II construiu uma nova cidade sobre ela e lhe deu seu nome. Um editor posterior atualizou o topônimo, que foi o mesmo fenômeno que levou Gênesis 14:14 a mencionar Dã, cidade que só recebeu esse nome na época de Josué.
Como evidência adicional, Silva cita inscrições no túmulo de Tutmósis III que descrevem, na amduat (texto funerário egípcio geralmente encontrado junto aos faraós), pessoas sepultadas nas águas e uma oração pelo exército que morreu afogado. Para Silva, é um registro que aponta para o relato do Mar Vermelho.




