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A Bíblia fala de uma guerra final no Oriente Médio?

Nesta entrevista, especialista explica o que realmente significam as expressões dos capítulos 38 e 39 do livro de Ezequiel.

Os recentes conflitos no Oriente Médio costumam despertar, entre alguns cristãos, medo quanto a uma grande guerra. As tensões que envolvem os países da região aguçam o imaginário de quem enxerga, na Bíblia, a descrição de batalhas militares finais. É o caso de algumas interpretações sobre a batalha do Armagedom, no livro do Apocalipse. Alguns representantes de vertentes evangélicas veem, nos capítulos 38 e 39 do livro do profeta Ezequiel, conflitos entre Israel, Irã, Hamas, Hezbollah e até a Rússia. Para alguns, inclusive judeus, a identificação das nações de Gogue e Magogue pode estar em países atuais.

Ele é bacharel em Teologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), mestre em Arqueologia do Antigo Oriente Próximo e Línguas Semíticas pela Trinity International University, e doutor em Bíblia Hebraica pelo Boston College. Sua pesquisa doutoral envolve a aquisição e produção de conhecimento oracular (profético) na Bíblia Hebraica, especialmente no livro do profeta Ezequiel. No momento, Assis atua como pastor da Igreja Adventista de Anaheim, no estado da Califórnia, Estados Unidos.

De onde surgem ideias como a de uma batalha militar nos tempos atuais com referência na Bíblia?

Existem dois tipos de estudo de profecias bíblicas. Um é realizado com a Bíblia em uma mão e o jornal na outra. Nesse tipo de estudo, quase a mesma atenção é dada às Escrituras e ao jornal ou canal de notícias. O problema com esse tipo de estudo bíblico é que ele é muito especulativo. Ele deixa muitas perguntas sem resposta e quase exige um diploma em geopolítica, economia ou política externa para se entender a profecia.

É o caso dos capítulos 38 e 39 do livro de Ezequiel?

Sim. Há muita empolgação no mundo cristão, principalmente entre evangélicos, em relação a esses capítulos. O capítulo 38 começar com uma descrição de Gogue e de seu vasto exército: “a palavra do Senhor veio a mim, dizendo: Filho do homem, vire o seu rosto contra Gogue, da terra de Magogue, príncipe chefe, de Meseque e Tubal, e profetize contra ele dizendo: Assim diz o Senhor Deus: “Eis que estou contra você, Gogue, príncipe chefe de Meseque e Tubal. Eu o farei mudar de direção, porei anzóis em seu queixo e o levarei para longe, juntamente com todo o seu exército: cavalos e cavaleiros, todos vestidos de armamento completo, grande multidão, com escudos, todos empunhando a espada; persas e etíopes e Pute com eles, todos com escudo e capacete; Gômer e todas as suas tropas; a casa de Togarma, do lado do Norte, e todas as suas tropas, muitos povos com você” (38:1-6).

Se você observar o que alguns cristãos estão pregando sobre esse capítulo, frequentemente ouvirá a ideia de que ele descreve uma aliança entre Turquia, Pérsia (Irã) e Rússia. Alguns até conectam isso a líderes políticos modernos. Essas ideias foram influentes, inclusive na política externa dos Estados Unidos. Há registros do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, nos anos 1980, citando Ezequiel 38 para identificar a Rússia como inimiga do Ocidente durante a Guerra Fria. O que está acontecendo aqui? Este é um exemplo de impor interpretações do jornal sobre as Escrituras.

Outra interpretação

E qual seria uma outra maneira de ver o assunto?

Para entender isso, precisamos de um mapa. O texto menciona Gogue, um governante enigmático cuja identidade é debatida. Alguns o associam a Giges, rei da Lídia, no século 7 a.C. Meseque e Tubal são associados a regiões da antiga Turquia, Mushki e Tabal respectivamente, na época do segundo milênio antes de Cristo. A Pérsia é mencionada, juntamente com Cuxe e Pute, que correspondem a regiões da África. Seria o atual Sudão e Etiópia. No entanto, há a possibilidade de que Pérsia seja a palavra “Patros”, referindo-se ao Alto Egito. Isso significaria que todas essas regiões estariam geograficamente mais próximas.

O texto também menciona a casa de Togarma, conhecida em textos assírios do sétimo século antes de Cristo como Tilgarimmu associada à Armênia, e Gômer, identificada em textos clássicos e assírios como a região dos Cimérios ao norte da Turquia, próximas ao Mar Negro. É por isso que alguns intérpretes identificam Turquia e Irã na passagem. No entanto, esses nomes (Gogue, Meseque, Tubal, Togarma, Gomer) não tinham qualquer significado nos dias do profeta Ezequiel. Eram nomes antigos usados aqui de maneira genérica para descrever inimigos do povo de Judá.

Rússia e a profecia

Mas então surge a pergunta: de onde vem a Rússia?

A Rússia entra na interpretação por meio de um problema de tradução. A expressão hebraica traduzida como príncipe-chefe é nasi rosh, que significa líder principal. Quando foi traduzida para o grego, a palavra rosh não foi traduzida, mas transliterada. Mais tarde, alguns interpretaram isso como referência à Rússia por causa da semelhança sonora. Tanto é que várias versões em português se referem a Gogue como princípe de Ros. Isso levou à ideia de que Ezequiel 38 fala da Rússia, mas isso se baseia em uma má tradução.

O episódio mostra o perigo de importar a geopolítica moderna para o texto bíblico. Essa interpretação ganhou força durante a Guerra Fria e influenciou muitos sermões, livros e até filmes como Deixados para Trás. Mas, quando a União Soviética colapsou, essas interpretações se tornaram instáveis. Com esse tipo de abordagem, é possível fazer o texto dizer praticamente qualquer coisa. Por isso, não sou favorável a ler a Bíblia com o jornal. Devemos deixar o texto falar por si mesmo.

Interpretação adventista

E, então, o que realmente temos nessa passagem?

Os Adventistas do Sétimo Dia costumam entender que temos aqui um grupo de nações atacando o povo de Deus no fim dos tempos. A linguagem é simbólica. Assim como no livro de Apocalipse, essas imagens não devem ser interpretadas de forma estritamente literal. Gogue é retratado quase como um monstro marinho. No versículo 4, Deus diz que colocará anzóis em suas mandíbulas, como se faz com um peixe. Essa imagem é semelhante à de Ezequiel 29, onde o Egito é descrito da mesma forma.

O ponto principal é o quadro geral: sete nações representando um caos completo vindo de todas as direções contra o povo de Deus. A descrição é intencionalmente geral. Gogue não é claramente identificado, e não há um candidato histórico ou futuro definitivo. A imagem permanece aberta, porque representa qualquer força de caos contra o povo de Deus.

O problema ao estudar profecia é que muitas vezes nos concentramos em detalhes pequenos como nomes, símbolos e lugares e tentamos conectá-los aos acontecimentos atuais. Ao fazer isso, perdemos o quadro geral. É como olhar uma paisagem através de uma moldura pequena. Você vê algo bonito, mas perde todo o resto.

Contexto completo

Interessante essa ideia de olhar o quadro geral…

Sem dúvida. Estudar profecia é desafiador, mas precisamos manter o quadro geral em mente. Qual é esse quadro geral? Deus está no controle. No versículo 4, Deus diz: “Eu te farei voltar e porei anzóis em teus queixos.” É Deus quem dirige a ação. Gogue não age de forma independente. No versículo 21, Deus diz: “Chamarei contra Gogue a espada.” Deus está orquestrando o resultado. Deus é o vencedor desde o início.

No capítulo 39, Deus destrói as armas do inimigo: “Ferirei o teu arco… e farei cair as tuas flechas” (v. 3).  Isso faz o leitor lembrar do Salmo 46, onde Deus quebra o arco e queima os carros de guerra. Ele destrói as armas, executa o juízo e garante a vitória. O versículo 6 diz: “Enviarei fogo sobre Magogue… e saberão que eu sou o Senhor.” Deus é o vencedor. Em Ezequiel 39:9, o povo de Deus queima as armas do inimigo, enfatizando que a guerra terminou.

Ainda assim, ao estudar profecia, muitas vezes nos concentramos no inimigo—quem ele é e o que está fazendo—e esquecemos a vitória de Deus. Muitos leem textos apocalípticos como Ezequiel 38-39, Daniel 11, Zacarias 9-14, e o próprio livro do Apocalipse como documentos de descrições das forças malignas. A realidade é que em todos eles a ênfase é no Deus que destrói essas forças malignas e caóticas, independente de quem elas sejam.

Deixe uma mensagem final para os leitores da Bíblia

Deixe o Espírito Santo, a própria Bíblia e o contexto em que ela foi escrita ajudarem na interpretação. Evite fazer um estudo com todos os conceitos já definidos. No caso do texto sobre o qual estamos falando, observe também o uso repetido da palavra “grande” nesses capítulos: um “grande” exército (38:15), um “grande” terremoto (38:19). Isso tudo conduz à declaração de Deus: “Mostrarei a minha grandeza e a minha santidade” (38:23) O propósito da batalha é revelar a grandeza de Deus, não a do inimigo. Esse é o enfoque das profecias, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

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