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Liderança feminina nas primeiras igrejas cristãs

Liderança feminina nas comunidades cristãs dos primeiros séculos é atestada por descobertas arqueológicas.

Quando pensamos em liderança das primeiras comunidades cristãs, normalmente pensamos em Pedro, Paulo, João e talvez nos outros apóstolos.  Raramente lembramos do nome de mulheres. No entanto, podemos ver a liderança feminina das comunidades cristãs desde o Novo Testamento até o décimo segundo século em fontes literárias (textos) e em fontes materiais (arqueologia).

Mulheres no Novo Testamento

Desde o anúncio do nascimento do Messias até o princípio da perseguição dos primeiros cristãos, vemos a presença das mulheres nas páginas do Novo Testamento. Temos alguns exemplos. É o caso de Maria Madalena (João 20) e a mulher samaritana (João 4) como evangelistas; além disso, temos Priscila como professora (Atos 18:26), Lydia como líder e benfeitora (Atos 16:11-15), Febe como diaconisa e benfeitora (Romanos 16:1-2), Junia como apóstola (Romanos 16:7) e Dorcas como discípula (Atos 9:36).

Esta participação feminina proeminente descrita nas páginas do Novo Testamento também é observada na sociedade romana de forma geral por meio de Cleópatra (rainha do Egito) e Lívia (mãe de Tibério, imperador romano durante o ministério de Jesus).

Casa-igreja

De acordo com o Novo Testamento, a maioria das primeiras comunidades cristãs se reuniam em casas, que eram consideradas o domínio feminino. Eram ambientes administrados e comandados pelas mulheres. Além disso, a liturgia dos primeiros cristãos era bem diferente de hoje. O principal momento do encontro era a refeição, presente em todas as reuniões. Após a refeição, havia um momento de reflexão ou pregação por um dos presentes. Portanto, as primeiras igrejas se desenvolveram em locais que faziam parte do domínio feminino, o lar.

A igreja cristã mais antiga achada até hoje se encontra em Dura Europos, na Síria. Ela é datada dos anos 200.  Era uma casa que foi reformada para se adaptar às necessidades da comunidade e liturgia cristã. Nesta casa-igreja, existem pinturas com cenas bíblicas decorando as paredes. O local mais bem preservado é o batistério. A cena que ocupa a maior área das paredes é uma procissão de mulheres. Isto é, os cristãos daquela comunidade decidiram representar mulheres de forma proeminente, o que sugere uma forte participação feminina naquela comunidade.

Mulheres perseguidas

Pintura de catacumbas com mulher com as mãos erguidas em oração. (Foto: Wikimedia)

A participação na liderança feminina nos primeiros séculos aparece na carta de Plínio o Jovem, o governante da Bitínia, hoje Turquia, para o imperador Trajano, cerca do ano 110 d.C. Nesta carta, Plínio relata a sua perseguição aos cristãos, em especial duas mulheres escravas, chamadas de ministras, as quais ele torturou para descobrir a verdade sobre o cristianismo. Mas não achou nada além de “superstição”. Então, entre todos os cristãos que Plínio podia interrogar, ele escolheu duas mulheres. Neste tipo de situação, normalmente, são chamados os líderes, e neste caso eram mulheres.

Arqueologia e comprovação

As catacumbas cristãs são a maior fonte de informação material (arqueológica) a respeito dos cristãos nos primeiros séculos. Por serem galerias subterrâneas, as catacumbas estavam mais bem preservadas do que muitas outras estruturas cristãs. Nelas encontramos uma figura comum de uma pessoa retratada frontalmente com as mãos erguidas em posição de oração, chamadas de orante, é o retrato mais comum das catacumbas. De acordo com a iconografia religiosa, esta posição simbolizava alguma função de liderança. Das pessoas retratadas como orantes nas catacumbas romanas, 70% são mulheres, 20% casais e 10% homens. Portanto, de acordo com a realidade retratada nestas catacumbas, a maior parte da liderança cristã era exercida pelas mulheres.

Também é possível testemunhar a liderança das mulheres nas comunidades cristãs por conta de inscrições achadas em lápides. Existem epitáfios atribuindo títulos de liderança às mulheres, chamando-as de presbíteras (ou presidentes), diaconisas (líderes locais) e até mesmo de epíscopas (líderes regionais).

A participação das mulheres na liderança das comunidades cristãs também é perceptível nas proibições papais que chegaram até nós por meio dos registros de cânones de concílios e encíclicas papais. Quando a igreja começou a se organizar após seu reconhecimento pelo império, nos anos 300 por Constantino, sabemos que muitas práticas imperiais foram infiltradas na igreja. Dentre elas, o desejo pelo controle e poder. No concílio de Laodiceia, na década de 360, houve a primeira proibição da participação de mulheres como presbíteras. Mas tal impedimento não foi eficaz para todo império. Por exemplo, em 495 o papa Gelásio mandou uma carta para o sul da Itália e Sicília que dizia: “ouvimos com desgosto que os assuntos divinos chegaram a um nível tão baixo que as mulheres são encorajadas a oficiar nos altares sagrados e a participar de todos os assuntos atribuídos aos ofícios do sexo masculino, aos quais elas não pertencem.’”

A carta do papa Gelásio, portanto, evidencia que as mulheres permaneceram exercendo liderança em algumas igrejas cristãs mesmo após às proibições papais.

Liderança confirmada

O Novo Testamento relata mulheres participando na liderança da missão cristã. Esta participação continuou nos séculos seguintes e pode ser observada por fontes materiais como inscrições e, ironicamente, por proibições encontradas em fontes literárias.

A participação feminina na liderança cristã começou a ser suprimida por ocasião da institucionalização da igreja no 4º século (anos 300). Mas o processo de exclusão das mulheres da liderança cristã foi lento, levando vários séculos. Mesmo sob oposição, entretanto, mulheres continuaram participando da liderança da missão cristã até os nossos dias.


Carina Oliveira Prestes é doutora em Arqueologia Bíblica pela Universidade Andrews. Atualmente é professora do Mestrado Acadêmico em Teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) e curadora do Museu de Arqueologia Bíblica (MAB).

Referência:

PRESTES, C. Excavating Women: The Archaeology of Leaders in Early Christianity, 2025.

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