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A importância da família quando a memória começa a sumir

O Dia Mundial da Doença de Alzheimer chama atenção para uma enfermidade que também transforma a rotina e os vínculos familiares

Em 2021, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que cerca de 57 milhões de pessoas vivem com algum tipo de demência no mundo. O Alzheimer é a forma mais comum, com cerca de 60 a 70% dos casos. Entretanto, o impacto ultrapassa a pessoa diagnosticada, afetando também a família, amigos e pessoas com quem convive.

Ainda segundo estudos da OMS, até 2050 o número total de pessoas com algum tipo de demência pode chegar a 152 milhões. O alerta reforça a importância do Dia Mundial da Doença de Alzheimer, que busca conscientizar sobre o assunto e trazer esclarecimentos que quebram um pouco os estigmas e preconceitos sobre a enfermidade.

Um começo difícil

O ano era 2002 quando Alice Damam Becker adoeceu. Mesmo com exames e remédios, nenhum diagnóstico identificava o que ela tinha. Porém, a piora era constante. A família morava em Laranja da Terra, uma cidade no interior do Espírito Santo, e ela, na zona rural da região.

Em 2003, quando a neta de Alice, Karinny Becker completou 1 ano, a celebração aconteceu na casa da avó, pois imaginava-se que aquele seria o primeiro e último ano em que elas poderiam passar juntas. Entretanto, alguns remédios foram sendo retirados, novas consultas feitas e a família descobriu que os sintomas estavam associados ao início do Alzheimer. Karinny ressalta que, na época, a família não tinha muito conhecimento sobre a doença.

Uma memória que ficou

“Minha avó sempre foi muito cristã e, mesmo com o Alzheimer, ela continuou lendo muito a Bíblia”, lembra Karinny. A neta conta que há vários vídeos da avó falando sobre Jesus e a volta dEle. “Ela poderia não lembrar de você, mas lembrava de Jesus”, destaca.

“Minha avó também gostava muito de assistir à TV Novo Tempo. E, por causa do Alzheimer, ela achava que os apresentadores estavam visitando a casa dela”, conta. Enquanto acompanhava a programação televisiva, Alice também ia para a cozinha e preparava um lanche, esperando que os visitantes fossem aproveitar. “Mas, quando ela voltava para a sala, o programa já tinha mudado e ela achava que eles tinham ido embora sem comer. Depois esquecia e continuava assistindo”, relembra a neta.

Uma das atividades que também ajudavam a senhora eram os afazeres domésticos diários. Karinny contou que onde sua avó morava tinham muitas árvores e sempre caíam muitas folhas. “Ela gostava muito de limpar, então varria o quintal praticamente todos os dias e, com isso, continuava se movimentando bastante”, afirma.

Com o passar dos anos, Alice começou a esquecer a maioria das pessoas, mas, daqueles que estavam ali, ao seu lado, não. Karinny explicou que seus tios moravam no mesmo terreno e, com a chegada da doença, eles foram para a casa de sua avó para cuidar dela de perto, principalmente por ela não poder dormir sozinha.

“Ela não esqueceu deles. Também não esqueceu de mim e dos meus pais”, detalha a neta. “Nos finais de semana, eu e meus pais íamos para lá para ficar com ela, ajudar a cuidar e, claro, deixar meus tios descansarem um pouco”, explica Karinny.

Setembro Lilás

O mês de setembro é marcado por ações de conscientização sobre a doença de Alzheimer e outras formas de demência. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre a condição, seus sinais, o diagnóstico e as formas de apoio às pessoas que vivem com a doença e seus cuidadores.

Para reforçar ainda mais a importância desse debate, anualmente a Alzheimer’s Disease International (ADI) desenvolve relatórios com pesquisas, dados e orientações sobre diferentes aspectos relacionados à demência.

Lançado em 21 de setembro deste ano, o Relatório Mundial sobre Alzheimer 2026 tem como tema central os ensaios clínicos em demência. Com coautoria do jornalista Paul Gallagher, o documento analisa uma nova fase das pesquisas na área e busca ir além dos aspectos científicos, apresentando também as perspectivas humanas relacionadas aos ensaios clínicos.

O relatório traz evidências e experiências de vida de pessoas envolvidas em pesquisas clínicas e explica o funcionamento desses ensaios para o desenvolvimento de novos tratamentos. O material também busca aumentar a conscientização e compreensão dos profissionais de saúde sobre essas inovações.

Um cuidado a mais

Ao perceber alguns desses sinais, ou a persistência, a progressão e até a interferência na vida cotidiana, é importante buscar atendimento médico. Entre as diversas especialidades que atuam na investigação e cuidado, há três que podem ser trabalhadas em conjunto: geriatra, neurologista e psiquiatra.

A geriatria cuida da saúde integral da pessoa idosa, avaliando o quadro de demência junto a outras doenças e comorbidades da idade. Já a neurologia vai focar em doenças do sistema nervoso e estudar as funções cognitivas e cerebrais. Enquanto a psiquiatria abordará as alterações de comportamento, humor, depressão e distúrbios do sono associados à doença, além de diferenciar sintomas que podem ser confundidos com o Alzheimer.

Embora o risco de demência aumente com a idade, ela não é uma consequência natural do envelhecimento. O Alzheimer também pode surgir antes dos 65 anos, embora bem menos frequente.

Contudo, compreender os sinais, buscar acompanhamento e construir uma rede de cuidado pode fazer a diferença não apenas para a pessoa diagnosticada com Alzheimer, mas para toda a família.

Diferenças e atenção

O doutor Fernando Arruda, médico especialista em saúde mental, explica a diferença entre a demência e o Alzheimer. A primeira é uma síndrome clínica, um conjunto de sintomas relacionadas ao declínio da parte cognitiva. “A mais vista e conhecida atualmente é relacionada à memória, mas também há da linguagem, planejamento, atenção e autonomia”, ressalta.

Já a doença de Alzheimer é a principal causa de demência em idosos. “O diagnóstico passa pela identificação da perda da memória e posterior comprometimento de outras funções cognitivas”, ressalta o psiquiatra.

Em relação ao apoio familiar, o médico destaca que alguns pacientes com a doença de Alzheimer não conseguem perceber ou reconhecer suas alterações cognitivas e sintomas, podendo confundir com cansaço ou falta de concentração. Esses casos são ainda mais comuns com a evolução da doença.

“Para o diagnóstico, a família é fundamental, assim como para consultas, tratamentos, segurança e organização da rotina do paciente, além de qualidade de vida. Lembrando que não existe um tratamento que cure o Alzheimer”, afirma.

“O acolhimento do paciente faz com que a autonomia do planejamento diário da pessoa com Alzheimer tenha maior eficácia”, destaca.

“O cuidado contínuo pode ser emocionalmente cansativo e esse é um ponto muito importante. Só quem convive sabe como é desgastante passar por essa situação”, aponta o doutor em relação ao outro lado, o da dedicação familiar e a atenção que o cuidador também precisa receber.

Fernando finaliza afirmando que a saúde do idoso precisa de atenção em alguns pontos, como quando o paciente começa a perder a audição e a se isolar. “Esse isolamento tem sido visto, pela parte médica, como um acelerador do declínio cognitivo.  Por isso, observar o idoso que fica mais quieto, sem conversar muito, é um sinal importante. Isso faz toda a diferença”, conclui o psiquiatra.

Conheça alguns sinais de alerta

  • Esquecimentos frequentes, inclusive de memória recente.
  • Repetição das mesmas perguntas ou assuntos.
  • Dificuldade para realizar tarefas cotidianas.
  • Desorientação no tempo e no espaço.
  • Grande esforço para encontrar palavras ou acompanhar conversas.
  • Mudanças significativas de comportamento ou humor.
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