Jesus foi batizado há dois mil anos?
A resposta sobre a data do batismo de Jesus vem de um estudo cuidadoso de profecia bíblica e da cronologia histórica.

Apesar de Jesus literalmente dividir a história, a cronologia de sua vida está envolta em controvérsia. Mesmo historiadores ateus ou agnósticos admitem que Jesus viveu e morreu no território conhecido hoje como Israel. Por outro lado, cristãos não estão de acordo sobre as datas precisas de seu nascimento e morte. Só para a crucifixão, as estimativas variam entre 21 e 36 d.C.
Apesar dos desafios envolvidos no estudo da cronologia da vida de Jesus, evidências bíblicas, históricas e astronômicas ajudam a decifrar os mistérios do calendário dos eventos que mudaram a história. Nesse breve artigo vamos revisar algumas dessas evidências para entender quando Jesus iniciou seu ministério e porque podemos comemorar a precisão de 2000 anos de seu batismo em 2027.
A sucessão de calendários na história
A falta de acordo em relação à cronologia exata da vida de Jesus ou a muitos outros eventos na antiguidade está relacionada a diversos fatores. A Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos, não adota uma marcação de datas vinculada a uma era cronológica contínua. Além disso, os povos da antiguidade adotavam sistemas de calendário próprios, baseando-se no sol, na lua ou na combinação de ambos.[1]
Quer ver um exemplo? Os calendários egípcios e romanos eram solares com 365 dias fixos. Para minimizar a discrepância do calendário Juliano com o ano trópico (ou ano solar) que tem exatamente 365,2422 dias, os romanos acrescentavam 1 dia a cada 4 anos. Mesmo assim, com o passar dos anos o calendário Juliano acumulou um atraso que em 1582 d.C. já consistia em 10 dias. Isso levou à reforma gregoriana que criou o sistema do ano bissexto, que até hoje é usado no ocidente.
Quem inventou a chamada era cristã?
O sistema da era cristã, no entanto, só foi criado em 525 d.C. pelo monge Dionísio Exíguo. O nascimento de Jesus divide o calendário, sendo os anos anteriores contados de forma decrescente, como antes de Cristo (a.C.) e posteriores ao seu nascimento, depois de Cristo (d.C.). Nesse sistema, não existe “ano zero”, pois o ano 1 a.C. é seguido diretamente pelo ano 1 d.C.—o que gera um deslocamento de um ano em cálculos que atravessam as duas eras.
É nesse ponto que a discrepância entre a data do batismo de Jesus no ano 27 d.C. e a idade de Cristo no seu batismo aos 30 anos surgiu. Dionísio acabou fixando o primeiro ano de sua lista como 532 desde a encarnação. Isso colocou o nascimento de Cristo no ano 753 desde a fundação de Roma, que era como se contava o tempo no Império Romano. Isso aconteceu porque Dionísio não tinha as informações históricas disponíveis hoje que permitem estabelecer com certa segurança ironicamente o ano do nascimento de Cristo em 4 a.C.
Outro aspecto importante para se levar em conta ao estudar a cronologia bíblica é a falta de padronização na contagem dos anos de reinado dos governantes no mundo antigo. Existiam três formas de fazer essa conta: a factual, que considerava a data exata com dias e meses (comum entre os romanos); a do ano de ascensão, em que o ano incompleto de posse não entrava no cálculo; e a de não ascensão, que já contava esse pedaço de ano como um ano cheio. Por causa dessa diferença, um mesmo evento podia mudar em até um ano no calendário.[2]
Mas em que ano tempo ocorreu o batismo de Jesus?
A primeira pista sobre a cronologia do batismo de Jesus aparece no evangelho de Lucas 3:2. Ali é dito que Jesus tinha cerca de 30 anos quando começou o seu ministério, logo após seu batismo. A referência de Lucas à idade de Jesus pode ser mais precisa do que alguns tem considerado, já essa era a idade na qual um líder religioso costumava iniciar suas funções. Isso é importante porque uma vez que João Batista e Jesus tinham seis meses de diferença de idade, ambos devem ter começado seu ministério no mesmo ano.[3]
Lucas dá uma pista cronológica importante ao definir o início do ministério de João Batista. De acordo com ele, isso ocorreu “no décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da região da Itureia e Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene” (Lucas 3:1). Levando em consideração o tempo desses governantes, o batismo de Jesus, que ocorreu em torno de seis meses depois do início do ministério de João Batista, deve ter ocorrido entre 26 e 37 d.C.
A informação mais promissora para fixar o ano do batismo de Jesus é o 15º ano do reinado de Tibério César. Ele governou Roma como único imperador entre setembro de 14 d.C. e março de 37 d.C. Embora uma conta simples, 15 anos após 14 d.C. levaria para o ano 29, há pelos menos quatro fatores que precisam ser levados em conta. Primeiro, se os anos de corregência com Augusto deveriam ser considerados (em torno dois anos antes da morte de Augusto); se Lucas estava usando o calendário romano, macedônico ou judeu; e se estava usando o judeu, a contagem era de primavera a primavera (calendário religioso) ou de outono a outono (calendário civil); e finalmente, que método de anos de reinado empregava (factual, inclusivo ou não inclusivo). As diferentes combinações levam a 16 possíveis datas para o 15º de Tibério.[4]
Uma vez que Lucas estava escrevendo a partir de uma perspectiva judaica, ele provavelmente usou o sistema judaico tradicional, que contava o tempo de um governante de outono a outono e considerava o ano de posse de forma inclusiva. Ou seja, o 15º ano do imperador Tibério vai exatamente do outono de 27 d.C. ao outono de 28 d.C. Mesmo que a contagem seja feita a partir do período em que Tibério governou com Augusto (corregência), usando o calendário romano ou o calendário religioso judaico a data do batismo de Jesus continua caindo no ano 27 d.C.
Outra informação que confirma a data do batismo de Jesus em 27 d.C. é a observação dos fariseus de que o templo já estava em construção há 40 anos (João 2:20). Registros de Flávio Josefo mostram que Herodes começou a reformar o Templo no 18º ano de seu reinado. Refazendo a linha do tempo desde sua tomada de Jerusalém, os 46 anos de construção apontam para a primavera de 28 d.C. O detalhe interessante é que isso acontece cerca de seis meses depois do batismo de Jesus, ocorrido no outono de 27 d.C. Sabendo que o ministério de Jesus durou uns três anos e meio e que essa conversa se deu às vésperas da primeira Páscoa, a data do batismo no outono se confirma perfeitamente.[5]
Qual a profecia do Antigo Testamento que fala da data?
A data do batismo de Jesus em 27 d.C. é confirmada de maneira muito precisa pela profecia das 70 semanas, que estabelece o cronograma da vinda do Messias. Segundo Daniel 9:24–27, o Messias viria 69 semanas ou 483 anos depois da ordem para restaurar e edificar Jerusalém. Esse decreto foi emitido por Artaxerxes em 458 a.C. e foi efetivado no outono de 457 a.C. após a chegada de Esdras em Jerusalém. Isso nos leva exatamente a 27 d.C., quando o batismo de Jesus abre a última semana da profecia. No meio dessa semana, ou seja, depois de três anos e meio, o Messias seria “cortado.”
A data da morte de Jesus oferece a âncora mais segura para a cronologia da vida de Jesus, incluindo seu batismo. Sabemos que Jesus morreu em uma sexta-feira durante a festa da Páscoa, ou dos Pães Asmos. Assim, podemos chegar entre 26 e 36 d.C., que são os anos do governo de Pilatos na Judeia, qual ano ou anos a data da Páscoa ou do primeiro dia da festa dos Pães Asmos caiu em uma sexta-feira. A evidência bíblica é muito clara quanto à sequência dos eventos da paixão. Ele comeu a Páscoa com os discípulos em uma quinta-feira à noite e foi crucificado no dia seguinte. Após descansar na sepultura durante o sábado, ele ressuscitou nas primeiras horas do domingo.
Com a ajuda de programas avançados de astronomia é possível determinar a visibilidade da lua a fim de saber quando Nisã, o primeiro mês do ano religioso judaico, começou em cada um desses anos. Embora haja uma discussão se Jesus morreu em 14 ou 15 de Nisã, o único ano viável para a crucifixão em uma sexta-feira é 31 d.C.[6]
A crucificação em 31 d.C. estabelece a base de toda a estrutura cronológica. Com esse marco fixado, confirma-se o início do período profético em 457 a.C., o batismo em 27 d.C. e os eventos seguintes dentro do mesmo panorama profético.
Em resumo, o que podemos aprender?
No fim das contas, tudo aponta para o mesmo lugar. Temos vários aspectos: a idade de Jesus mencionada por Lucas, o 15º ano de Tibério César, os 46 anos de obras no Templo, a profecia das 70 semanas, que começou em 457 a.C., e o cálculo astronômico da crucifixão em 31 d.C. Os períodos não brigam entre si: pelo contrário, um confirma o outro e todos indicam o outono de 27 d.C. como o ano em que Jesus foi batizado. Aquilo que parecia uma desordem de calendários diferentes, quando juntamos as evidências da Bíblia, da história e da astronomia, vira uma linha do tempo que faz sentido.
Assim, a visão tradicional mantida pelo adventismo não é apenas sustentável, mas também oferece a melhor estrutura para os dados disponíveis. Em 2027, no contexto do projeto OneVoice27, os cristãos são convidados a celebrar o 2000º aniversário desse grande marco na história da redenção. Ao passar pelo Jordão no batismo, Jesus iniciou Seu ministério, um caminho que o levaria do sofrimento à glória. É uma glória da qual todos os Seus filhos podem participar ao aceitar Seu sacrifício, confiar em Seu ministério celestial e seguir Seus passos no discipulado.
Referências:
[1] Francesca Rochberg-Halton, “Calendars: Ancient Near East,” in The Anchor Yale Bible Dictionary, ed. David Noel Freedman (New York: Doubleday, 1992); Robert Hannah, Greek and Roman Calendars Constructions of Time in the Classical World (London: Duckworth, 2005), 98–130; Denis Feeney, Caesar’s Calendar: ancient time and the beginnings of history (Berkeley Los Angeles London: University of California Press, 2007); Sacha Stern, Calendars in Antiquity: Empires, States, and Societies (Oxford: Oxford University Press, 2012), 205–227.
[2] Edwin Thiele, The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings, New Revised Edition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1983), 43–60. Andrew E. Steinmann, “Reckoning Tiberius’s Reign and Jesus’s Baptism,” Tyndale Bulletin 73 (2022): 100.
[3] Henderson Hermes Leite Velten and Juarez Rodriguez de Oliveira, A Astronomia e a Glória do Adventismo: Um Estudo sobre a a Precisão do Cálculo Profético de Daniel 8:14 e 9:24-27 (Vitória, Brazil: Luz do Mundo, 2018)
[4] Finegan, Handbook of Biblical Chronology, 332–337.
[5] Velten e Oliveira, A Astronomia e a Glória do Adventismo, 243–259.
[6] Juarez Rodrigues de Oliveira, Chronological Studies Related to Daniel: 8:14 and 9:24-27 (São Paulo, Brazil: Imprensa Universitaria Adventista, 2004).