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Quando o partido ocupa o lugar do reino de Deus

Eleições passam, mas a missão de levar Jesus para o outro permanece, daí a necessidade de equilibrar o papel cidadão com a identidade cristã

A missão da Igreja é fazer discípulos e anunciar o evangelho, não conquistar o poder político. A participação cidadã pode fazer parte da atuação cristã, mas não deve substituir a vocação de apresentar Cristo como fonte de esperança e redenção.

• O texto alerta que colocar disputas eleitorais acima da fé pode comprometer o testemunho cristão, afastar pessoas do evangelho e transformar divergências políticas em conflitos entre irmãos.

• A reflexão destaca que candidatos, partidos e governos mudam, mas a missão permanece: anunciar Cristo, servir ao próximo, preservar a unidade e manter a esperança na volta de Jesus e no Reino eterno.

Em período eleitoral, uma cena se repete e entristece: cristãos que parecem trocar a identidade do reino de Deus pela identidade de um partido. Isso acontece em todos os espectros políticos. A linguagem muda, os candidatos mudam, mas o risco é o mesmo: permitir que a atividade política ocupe o lugar da fé, da comunhão e da missão.

O cristão pode participar da política?

O cristão pode participar da vida pública. Deve buscar o bem, agir com responsabilidade e preocupar-se com a justiça e com o próximo. A fé não nos autoriza a cruzar os braços diante do sofrimento. “Enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos” (Gálatas 6:10). Jeremias 29:7 orienta os exilados a buscar a paz da cidade. O termo hebraico shalom, traduzido ali como “paz”, também pode expressar bem-estar e prosperidade. O povo de Deus deveria, portanto, contribuir para o bem da cidade onde vivia, na medida do possível. Esse princípio também orienta os cristãos hoje: embora sejam peregrinos neste mundo, são chamados a buscar o bem da sociedade. Fazer o bem, contudo, não significa entregar a um partido a nossa consciência, a nossa esperança ou a nossa identidade.

Qual é a identidade principal do cristão em tempo de eleição?

Nossa cidadania principal está nos céus (Filipenses 3:20). Somos, antes de tudo, discípulos de Jesus e representantes de seu Reino. Por isso, é preocupante quando uma pessoa cristã que se prepara para o reino de Deus opta por se dedicar mais a eleger um candidato ou a tirar outro do poder do que a anunciar o evangelho; quando a defesa de uma agenda política parece despertar mais fervor do que a proclamação de Cristo; quando irmãos na fé passam a ser tratados como inimigos porque votam diferente.

Qual é a missão da Igreja diante da política?

A missão da Igreja não é conquistar o poder político. É fazer discípulos, ensinando-os a guardar tudo o que Cristo ordenou (Mateus 28:19, 20). A participação política, em sentido amplo, pode ser um campo de atuação cristã, mas não deve se tornar o centro da identidade do cristão nem substituir sua vocação. Nenhum partido recebeu a missão de salvar o mundo. Nenhum governante pode remover o pecado, reconciliar a humanidade com Deus ou inaugurar o Reino eterno.

A Bíblia promete que a política vai transformar o mundo?

A Bíblia não alimenta a ilusão de que o mundo será aperfeiçoado por projetos humanos. Jesus falou de conflitos e aflições (Mateus 24:6-8), e Paulo advertiu sobre tempos difíceis (2 Timóteo 3:1-5). Isso não nos torna indiferentes ao sofrimento, nem nos dispensa de fazer o bem. Significa que não devemos depositar em governos a esperança que pertence a Cristo. Trabalhamos pelo bem do próximo, mas sabemos que a redenção definitiva não virá das urnas.

Quando acompanho as redes sociais de alguns cristãos e percebo que demonstram mais engajamento com as disputas eleitorais do que com as questões do Reino, fico preocupado com as prioridades que isso revela. Talvez pensem: “É só durante o período eleitoral; depois voltarei a expressar minha identidade cristã nas redes.” Esse raciocínio, porém, ignora as consequências. Ao transformar adversários políticos em inimigos, o cristão pode perder a confiança e a possibilidade de ser ouvido por pessoas a quem deveria apresentar o evangelho. Seria trágico perder oportunidades de falar de Cristo por causa de uma disputa passageira.

Quando a posição política se torna um problema para o cristão?

O problema não está em o cristão ter uma posição política, mas em permitir que ela se torne sua identidade mais forte, sua principal paixão e o filtro pelo qual mede a fidelidade dos outros. Quando isso acontece, o evangelho corre o risco de ser usado a serviço de um projeto partidário, e o cristão deixa de submeter suas convicções ao senhorio de Jesus.

Eleições passam. Governos mudam. Partidos perdem e voltam ao poder. Mas a missão permanece: anunciar Cristo, servir ao próximo e viver como cidadãos do Reino. Podemos divergir sobre candidatos e propostas; não podemos permitir que essa divergência destrua o amor, a unidade e o testemunho que devemos ao mundo.

Que o nosso maior fervor não seja por um partido, mas por Cristo. Que nossa esperança não dependa de quem vence uma eleição, mas daquele que prometeu voltar. E que, em meio à disputa política, não nos esqueçamos do chamado que recebemos: pregar o evangelho e apontar para o Reino que não terá fim. Essa é a identidade que deve nos definir como cristãos!

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