Diagnóstico de autismo, ainda que tardio, ajuda na compreensão do transtorno e na qualidade de vida

Identificação pode proporcionar melhor desenvolvimento pessoal e social para adultos com autismo. Especialistas argumentam que a identificação do TEA ajuda a compreender comportamentos e buscar maneiras de viver melhor.
O diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode possibilitar a quebra de muitos bloqueios desenvolvidos ao longo dos anos, além do entendimento em relação a limitações ou diferenças na infância. Alívio emocional e compreensão sobre comportamentos antes sem explicação também fazem parte da nova fase pós-diagnóstico.
Após anos enfrentando problemas de comunicação, desafios em relacionamentos afetivos, no trabalho e até na família, muitas pessoas têm descoberto o autismo já na fase adulta. É o caso do pastor adventista Jackson Andrade, que por anos não conseguia compreender certos comportamentos e porque era desafiador estar rodeado de pessoas e sons.
Nascido em 1983, Jackson viveu sua fase escolar nos anos 90, época em que termos como neurodivergente ou autista ainda não eram comuns. Ele relata que cresceu sem muitos recursos e sem entender o que acontecia em sua vida, até que sua professora, Maria Amélia, percebeu que havia algo diferente com ele. “Costumo dizer que ela era uma mulher à frente do seu tempo”, destaca o pastor.
“Ela encontrou algo errado comigo e disse para minha mãe: ‘Ele não reage às outras crianças. Às vezes, na sala de aula, ele começa a rir do nada, acha graça de uma coisa que ninguém mais achou. Os meninos às vezes batiam nele e ele não reagia’”, relembra.
Jackson detalha que sua mãe o levou ao psiquiatra. No entanto, nenhum diagnóstico foi feito na época, mas é grato à professora que o enxergou, não com preconceito ou exclusão de ‘menino complicado’. Ela percebeu algo. “É uma mulher que eu gostaria de encontrar novamente”, emociona-se. “Maria Amélia foi mais que minha alfabetizadora. Foi a primeira pessoa a notar que eu era autista em uma época que se não se falava em autismo”, conta.
A falta de um diagnóstico
Jackson Andrade explica que se tivesse os recursos atuais naquele tempo, sua história poderia ser outra. “Eu tive muitas crises de ansiedade, de pânico, problemas que eu não entendia. Então, quando veio o diagnóstico, a sensação era de libertação”, pontua. “Agora eu entendo, agora eu me enxergo.”
Foram mais de 10 anos de terapia até chegar à resposta. Segundo ele, os próprios psicólogos tinham dificuldade em entender o que estava acontecendo, mas afirmavam que era preciso encontrar a fonte de sua ansiedade. Faz cerca de sete anos que o pastor recebeu o diagnóstico. “Independentemente da idade que você tem, vale a pena ir atrás, porque você consegue se enxergar de outra forma”, aconselha Andrade.
Impactos sociais
O autismo é uma questão relacionada ao neurodesenvolvimento que traz, em diferentes níveis, dificuldades na comunicação, interação, inclusive com padrões comportamentais restritos e repetitivos. O não diagnóstico pode trazer muitas dificuldades de relacionamento, seja afetivo, familiar ou social.
O pastor Andrade explica que uma de suas maiores dificuldades era justamente a social. “Eu não conseguia me sentar e aproveitar um momento com os amigos, com as pessoas”, conta.
“Eu não entendia a atividade social como fazendo parte da minha vida. Para mim era somente parte do trabalho e isso é algo que mudou muito após o diagnóstico”, destaca. Ele ressalta ainda que esses comportamentos não são uma questão de falta de empatia, mas uma dificuldade real que os autistas enfrentam.
Desafios profissionais
Andrade lembra que, antes do diagnóstico, sua ansiedade e irritabilidade tinham níveis altos, inclusive sua reação de não querer estar em eventos. Ele compreendeu que a questão não era ser antissocial, mas que estar em lugares com muitas pessoas e sons o incomodam e desregulam suas emoções.
“Quanto mais gente, mais complicado é lidar. Eu sou uma pessoa super social. Mas eu tenho dificuldade. E isso também mudou muito depois do diagnóstico. Porque eu comecei a viver mais os momentos”, conta. Ele relata que agora sabe quando é preciso se retirar e equilibrar suas emoções.
Inclusive, o pastor ressalta o apoio que a Igreja Adventista oferece em eventos como Camporis, acampamento de adolescentes e jovens que fazem parte do Clube de Desbravadores, programa que apoia o desenvolvimento de meninos e meninas com idades entre 10 e 15 anos.
Nesses encontros, a Igreja Adventista busca integrar também uma sala de autorregulação, o que tem facilitado a participação de pessoas com algum tipo de sensibilidade ou neurodivergência. “Hoje, graças a Deus, eu vou ao Campori. Esse apoio da Igreja é muito bom, tanto da liderança, da administração e dos membros da Igreja”, afirma.
“Eu posso dizer que hoje eu sou uma outra pessoa e cada dia eu vejo que sou melhor. Com terapia, medicação e com a ajuda da comunidade. A cada dia é melhor”, destaca o pastor Jackson Andrade.
Autismo tardio
Mesmo com mais de 80 anos após o primeiro diagnóstico de autismo na história, por meio de um estudo desenvolvido pelo psiquiatra Leo Kanner, a falta de informação continua sendo uma grande barreia para o diagnóstico, o conhecimento e a empatia. Segundo pesquisa realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), há cerca de 70 milhões de pessoas no mundo diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Contudo, há pontos que se destacam entre adultos que ainda não têm a certeza do que acontece com eles, como a dificuldade de entender e participar ativamente do mundo ao redor, além de obstáculos em relacionamentos e convivência social. O diagnóstico tardio proporciona melhor qualidade de vida, novas oportunidades e autoconhecimento.
Alguns sinais de atenção
Allen Lins, psicóloga especialista em traumas e pós-graduada em educação inclusiva, ressalta alguns sinais que podem ser um alerta para jovens e adultos que percebem algo diferente, mas ainda não entendem o que vivem. “Muitos sentem exaustão social. Não conseguem seguir um roteiro para socializar e, além disso, eles têm hipersensibilidade sensorial”, detalha.
Ela ainda ressalta que incômodos sensoriais, como luzes, etiquetas de roupa, texturas e barulhos específicos são alguns pontos de atenção. Inclusive, há algumas dificuldades relacionadas a interpretações, como de regras não muito claras, segundas intenções, ironias, sarcasmo e até de ambientes.
“Além de hiperfoco específico em algo que eles gostem muito e se tornam especialistas naquilo”, sublinha Allen.
Como buscar ajuda?
A psicóloga destaca que o primeiro passo para uma pessoa que deseja entender o que está vivendo, e se ele se encaixa no perfil de alguém com TEA, é buscar um profissional especializado na área. “É preciso procurar psiquiatras, neurologistas e neuropsicólogos que entendam o autismo, que façam os devidos testes, como de funções executivas, cognitivas e sociais”, explica.
Allen Lins diz que muitas pessoas passam a vida com o autismo sem saber e, ao longo da caminhada, são diagnosticadas com depressão, ansiedade, transtorno bipolar e outros. “Elas até tomam remédio para esses casos, mas, muitas vezes não há resultado porque, na verdade, elas têm autismo”, ressalta.
Muitas pessoas acham que o adulto não tem autismo, pois ele fala bem, se expressa, entre outras justificativas. Porém, o autismo se desenvolve em três graus diferentes, além da camuflagem de sintomas que, muitas vezes, o adulto aprendeu a fazer ao longo da vida.
“Por isso que é importante procurar um médico especialista que entenda de autismo, para não receber o diagnóstico errado”, lembra.
A especialista conta que o diagnóstico pode trazer liberdade para a pessoa, além de tirar o peso da culpa. “Na maioria das vezes, o que escuto dos pacientes é a palavra alívio. O diagnóstico traz esclarecimento. Assim, a pessoa sabe o que tem e o caminho pelo qual deve andar”, finaliza.



