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Perguntas sobre a trindade divina

Compreenda neste artigo três aspectos: três pessoas e um Deus, a divindade do Filho e a natureza do Espírito Santo.

O objetivo deste artigo é responder a três perguntas sobre a trindade divina. Como introdução, é correto afirmar que a doutrina da trindade é bíblica, e ocupa “o centro da doutrina de Deus em particular e da teologia cristã em geral”.[1] E ao estudar sobre Deus, o ser humano feito do pó da terra (Gênesis 2:7; 3:19), deve reconhecer sua finitude e insuficiência diante da infinita superioridade do seu Criador. “Consegues descobrir as coisas profundas de Deus? Consegues alcançar os limites do Todo-Poderoso?” (Jó 11:7; ver Romanos 11:33).[2]

“Deus é infinitamente maior e mais sábio do que a mente humana pode conceber”.[3] Só podemos conhecer a respeito do Criador, por meio de Sua autorrevelação. Antes da entrada do pecado, Deus concedeu uma revelação geral pela perfeita natureza que Ele criou (Romanos 1:20; Salmo 19:1).[4] Após a queda do homem em pecado, toda a criação incluindo a humanidade, tem sido desfigurada pelo mal (Gênesis 3:17, 18; Romanos 8:20-23). Contudo, as pessoas são indesculpáveis, por negarem a existência do seu Criador e não o glorificar (Romanos 1:19-31).

Por que a Bíblia é base para compreender quem Deus é?

Em amor, Deus nos concedeu a sublime revelação especial das Escrituras Sagradas. “As Escrituras Sagradas são a revelação infalível, supremae repleta de Sua vontade” (Isaías 8:20; João 17:17; 2 Timóteo 3:16, 17; 2 Pedro 1:20, 21).[5] Para os adventistas do sétimo dia “a Bíblia é a única regra de fé e doutrina.”[6] Ao estudá-la, precisamos orar pela iluminação do Espírito Santo, e evitar “ultrapassar o limite entre as facetas do mistério reveladas e as encobertas (Deuteronômio 29:29)”.[7]

Deus nos adverte a não fazer comparações entre Ele e as coisas criadas (Isaías 40:18-22; Êxodo 20:4-6). “Deus não pode ser comparado a coisas feitas por Suas mãos”.[8] Ele é eterno (Salmo 90:2; Isaías 40:28). Embora as palavras onipotente, onipresente, onisciente, transcendente e imanente não constem nas Escrituras, seus conceitos são claramente ensinados. Deus é onipotente, Todo-Poderoso (Gênesis 17:1; Marcos 10:27).

Ele é onipresente, ou seja, pode estar em todos os lugares (Salmo 139:7, 8). É onisciente, tem todo o conhecimento (Jeremias 10:12; Romanos 11:33). Deus é transcendente, separado, independente e, não está contido nas coisas criadas (2 Crônicas 6:18, 21, 25; 1 Reis 8:27). Ele é imanente, pois se dispõe a habitar junto aos seres humanos, e em revelar-se a eles (Êxodo 25:8; João 1:1-3, 14).  A seguir a primeira pergunta.

Como Deus pode ser um e, ao mesmo tempo, três pessoas?

“Embora a palavra trindade (do latim yrinitas, tri-unidade ou tri-unicidade) não se encontre na Bíblia (tampouco a palavra “encarnação”), o ensinamento que ela descreve está claramente contido nas Escrituras”.[9] Resumindo, “Deus existe eternamente como três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo; cada pessoa é plenamente Deus; e há um só Deus.”[10] As Escrituras não ensinam o politeísmo, nem o triteísmo, mas somente o monoteísmo.

A Bíblia revela a unicidade de Deus, isto é, a ideia de um Deus único (Gálatas 3:20; Efésios 4:6; Tiago 2:19). Observe a conhecida oração Shema: “Escute, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Deuteronômio 6:4). O Shema têm sido considerado o “dogma monoteísta fundamental do Antigo Testamento”.[11] A palavra hebraica traduzida por “único” no Shema é ‘echad, que significa “um” conforme a tradução literal: “Yahweh nosso Deus, Yahweh [é] Um”.[12]

Moisés poderia ter usado a palavra yachid, mas “yachid significa ‘um’, no sentido único e sozinho”.[13] Pelo Espírito Santo, Moisés usou a palavra ‘echad que significa “um entre outros numa unidade combinada ou compartilhada”.[14] Logo, ‘echad representa uma unidade plural. Por exemplo: “Por isso, o homem deixa pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma (‘echad) só carne” (Gênesis 2:24). O homem e a mulher, duas pessoas, tornaram-se uma só carne. Uma unidade plural. Portanto, em Deuteronômio 6:4, “a possibilidade de existirem outros membros na Divindade é inerente a ‘echad, mas yachid exclui tal possibilidade.”[15] O Shema “expressa não somente a unicidade, mas também a unidade de Deus”.[16]

Como o Antigo Testamento apresenta a pluralidade da divindade?

Mas o monoteísmo bíblico “não contradiz o conceito cristão de um Deus triúno ou trindade do Pai, Filho e Espírito Santo. Em vez disso, enfatiza que não existe um panteão com várias deidades.”[17] Conforme a Bíblia, a unicidade divina não impede Sua pluralidade. “No relato da Criação em Gênesis 1, a palavra hebraica para Deus é ‘Elohim, a forma plural de ‘Eloha.”[18]

“E Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). Note que há um relacionamento interno na Divindade (Gênesis 3:22; 11:7; Isaías 6:8). Deus é eternamente amor (1 João 4:8; Jeremias 31:3), isto sugere um relacionamento eterno, interno, e amorável na Divindade, anterior à criação do Universo. A trindade constitui “uma unidade de três Pessoas coeternas que se inter-relacionam de forma única e misteriosa.”[19]

Como o Novo Testamento apresenta Pai, Filho e Espírito Santo?

O Novo Testamento apresenta fortemente a trindade divina. “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). O conceito bíblico de “nome” inclui “caráter e natureza”[20] (ver Êxodo 34:5-7; João 17:6, 11). “Observe que esta fórmula declara que os três membros da Divindade possuem um nome (singular, não plural), o que sugere fortemente que Eles são um em caráter pessoal e natureza.”[21]

A marcante presença do Filho e do Espírito Santo na fórmula batismal, implica “que o Filho e o Espírito Santo são iguais ao Pai.”[22] Implica também que o Espírito Santo é uma pessoa, assim como o Pai é uma pessoa, e o Filho é uma pessoa. Contudo, parece que, “é no quarto evangelho que se encontram as evidências mais fortes de uma trindade de igualdade: 1:33-34; 14:16, 26; 16:13-15; 20:21-22 (cf. 1 João 4:2, 13-14)”.[23]

Por outro lado, as cartas também apresentam a trindade divina (2 Coríntios 13:13; 2 Tessalonicenses 2:13, 14; Tito 3:4-6; 1Pedro 1:2).  “Há três pessoas vivas pertencentes à trindade celeste; em nome destes três grandes poderes – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – os que recebem a Cristo por fé viva são batizados, e esses poderes cooperarão com os súditos obedientes do Céu em seus esforços para viver a nova vida em Cristo.”[24]

Jesus é realmente Deus ou foi criado pelo Pai?

As Escrituras Sagradas apresentam Cristo como plenamente Deus, Criador, eterno e incriado (Isaías 9:6; João 8:58; Tito 2:13; Hebreus 1:2; 13:8). “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele, nada do que foi feito se fez” (João 1:1-3). Sem dúvida, o apóstolo fala de Cristo. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).

A Bíblia estaria ensinando o politeísmo se Cristo fosse criado. “Nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2:9). Cristo declarou “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). Que tremenda declaração! Cristo não é a mesma pessoa do Pai, mas é um com o Pai em substância e natureza divina. O Pai disse: “E todos os anjos de Deus O adorem” (Hebreus 1:6). Só Deus pode ser adorado. Portanto, Cristo é Deus (Tito 2:13; 1 João 5:20).

Cristo não perdeu nenhum atributo divino em Sua encarnação. Apenas revestiu Sua divindade com a humanidade (Mateus 1:23; Filipenses 2:5-8). A propósito, a palavra grega monoguenes traduzida em João 1:14, 18; 3:16, 18; 1João 4:9 por unigênito não se refere a nascimento, mas “significa único, único de uma espécie, singular”.[25] Já em Colossenses 1:14-18, Cristo é apresentado como Criador. Ele é o Primogênito, no sentido de posição, preeminência e dignidade sobre toda criação. “A posição de Cristo é única, autoritativa e absoluta”.[26] Ele é o “Primogênito dentre os mortos” (Colossenses 1:18). Sua ressurreição não foi a primeira, mas a mais importante. No batismo, e na transfiguração, o Pai chamou a Jesus de “meu Filho amado” (Mateus 3:17; Marcos 9:7). “A filiação de Jesus, porém, não é ontológica, mas funcional.”[27]

Qual o papel do Pai e do Filho no plano da salvação?

No plano da salvação, cada membro aceitou uma função. Os termos “Pai” e “Filho” “na mentalidade semítica ou oriental, enfatizam igualdade ou identidade de natureza.”[28] “Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada.”[29] Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem (João 20:26-29; Hebreus 1:1-8; 2:5-18; 10:5).

“Ele era uma união de uma natureza divina imortal e uma natureza humana mortal; pois somente Deus é imortal (1 Timóteo 6:16).”[30] E Ele ressuscitou pelo Seu próprio poder (João 10:17, 18; 11:25). Não compreendemos plenamente o mistério da natureza divino-humana de Cristo., mas “o importante agora é saber que Cristo morreu em nosso lugar, para nos salvar, um sacrifício vicário que jamais poderíamos oferecer”[31] (1 Coríntios 15:3; Hebreus 10:12).

O Espírito Santo é uma Pessoa ou apenas uma força ou influência de Deus?

O Espírito Santo é, biblicamente falando, uma Pessoa divina. Ele tem mente (Romanos 8:27), emoções (Efésios 4:30), e vontade (1Coríntios 12:7-11). O Espírito Santo fala: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Apocalipse 2:7). Pode-se mentir para Ele(Atos 5:3) e insultá-Lo (Hebreus 10:29).

O Espírito Santointercede (Romanos 8:26), testemunha (João 15:26), guia (João 16:13), convence (João 16:7, 8), ordena (Atos 16:6, 7), e nomeia (Atos 20:28). O Espírito Santo é Deus (Atos 5:3, 4). Ele é eterno (Hebreus 9:14). O Espírito Santo participou na Criação, na Encarnação e na Redenção (Gênesis 1:2; Mateus 1:18, 20; Hebreus 9:14; João 3:5). Ele é onisciente (1Coríntios 2:10, 11), onipresente (Salmo 139:7-10), e onipotente (Jó 33:4; Lucas 1:35, 37).

O Espírito Santo é o outro consolador prometido por Cristo (João 14:16).“Visto que o termo grego allós significa “outro da mesma classe”, segue-se que o Espírito Santo era da mesma espécie que Cristo, a saber, uma Pessoa divina.”[32] O Espírito nunca glorifica a si mesmo, mas a Cristo (João 16:14). É interessante notar que, segundo um autor, “o Espírito Santo é uma Pessoa muito humilde. Ele não gosta de falar sobre si mesmo, mas sobre o Senhor Jesus Cristo e o Pai celestial (João 15:26; 16:12-15).”[33]

Qual a obra do Espírito Santo na vida cristã

A Bíblia ensina ainda que o Espírito inspirou os escritores das Escrituras (2 Pedro 1:21). Ele converte o pecador (Hebreus 3:7, 8; João 16:8-11). Produz o novo nascimento (João 3:5), e nos guia em toda a verdade (João 16:13); além disso, Ele nos transforma (2 Coríntios 3:18), e dá dons espirituais (1 Coríntios 12:4-11). “Precisamos reconhecer que o Espírito Santo que é tanto uma pessoa como o próprio Deus, está andando por esses terrenos.”[34]

Há uma ressalva importante, pois ninguém é salvo por conhecimento intelectual da trindade divina. “Você crê que Deus é um só? Faz muito bem! Até os demônios creem e tremem (Tiago 2:19). “Lemos que o diabo creu e tremeu, mas essa fé não o salvou.”[35] Conheçamos a Deus de modo experiencial, salvífico, em Cristo (João 17:3; 3:16).

O mais importante, concluindo, é avançar na fé de Jesus que resulta em obediência a todos os mandamentos do Senhor (Apocalipse 14:12). Que pelo poder do Espírito Santo proclamemos em “uma só voz” Seu amor e a verdade presente, até que a terra se encha “do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Habacuque 2:14; Marcos 16:15; Atos 1:8; Apocalipse 14:6-12). Isto deve ser feito no contexto da iminência da breve volta de Jesus (Apocalipse 14:20; 22:20). “Que a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês” (2 Coríntios 13:13).


Referências:

[1]CANALE, Fernando, “Doutrina de Deus” em Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, editor Raoul Dederen, 1ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021, p. 137. A seguir: Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia.

[2]Jó 11:7. Bible New King James Version. Nashville, TE: Thomas Nelson Publishers, 1982.

[3]REEVE, John W. “¿Es que los cristianos adoramos a tres dioses?” em Siempre preparados, editado por Humberto M. Rasi y Nanci D. Vyhmeister. 1ª ed. Lima, Peru: Universidad Peruana Unión, 2014, p. 111.

[4]Salvo quando informado, os textos bíblicos deste artigo são da versão Nova Almeida Atualizada (NAA), 3ª ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

[5]Nisto cremos, 10ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2022, p. 11. A seguir: Nisto cremos.

[6]WHITE, Ellen G. Fundamentos da educação cristã, 2ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013, p. 126.

[7]Tratado de teologia adventista do sétimo dia, p. 124.

[8]WHITE, Ellen G. Evangelismo, 3ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012, p. 614.

[9]PFANDL, Gerhard. “A Trindade nas Escrituras”, em Revista Parousia, editores Amin A. Rodor e Alberto R. Timm. Engenheiro Coelho, SP: Unaspress (2º semestre 2005), p. 7. A seguir: PFANDL.

[10]Ibidem.

[11]CRAIGIE, Peter C., The New International Commentary on the Old Testament: The Book of Deuteronomy, ed. R. K. Harrison. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1976, p. 174.

[12]Comentário bíblico adventista do sétimo dia, v. 1, p. 1067.

[13]WIDDEN, Woodrow; MOON, Jerry; REEVE, John W. A Trindade, 1ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora, 2003, p. 39. A seguir: A Trindade.

[14]Ibidem.

[15]Ibidem.

[16]GULLEY, Norman R. Systematic Theology: God As Trinity.Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2011, p. 23.

[17]Nisto cremos, p. 33.

[18]PFANDL, p. 7.

[19]Nisto cremos, p. 33.

[20]A Trindade, p. 38.

[21]Ibidem.

[22]PFANDL, p. 9.

[23]ERICKSON, Milard J. Introducing Christian Doctrine, Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1998, p. 100.

[24]Evangelismo, p. 615.

[25]PFANDL, p. 15.

[26]Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 7, p. 182.

[27]PFANDL, p. 9.

[28]Ibidem.

[29]WHITE, Ellen G. O Desejado de Todas as Nações, 22ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013, p. 530.

[30]GULLEY, Norman R. Systematic Theology: Creation, Christ, Salvation, Berrien Springs: ML, Andrews University, 2012, p. 467, 468.

[31]Ibidem.

[32]Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, p. 151.

[33]SIQUEIRA, Reinaldo W. e Timm, Alberto R. orgs. Pneumatologia Pessoa e Obra do Espírito Santo, 1ª ed. Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2017, p. 19.

[34]Evangelismo, p. 616.

[35]WHITE, Ellen G. Cristo Triunfante, MM2002, p. 60.

 

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